Capítulo -1 Cinzas e Chuva
O cheiro de madeira queimada e o gosto de fumaça na boca eram as únicas coisas que restavam.
A chuva caía sem trégua, transformando a terra em uma lama escura e pegajosa.
Zaya estava jogada no chão. Aos quinze anos, seu corpo pequeno doía como se cada articulação estivesse quebrada, mas ela se recusava a fechar os olhos. O sangue escorria da testa, lavado pelas gotas frias da tempestade. A casa que fora seu lar por toda a vida agora era apenas um esqueleto de madeira carbonizada, devorada por chamas dançantes que desafiavam o temporal.
As vozes... os gritos... o som violento do metal contra o metal.
Tudo acontecera rápido demais.
Na memória de Zaya, ainda estava vivo o aroma do pão quente que sua mãe assava ao amanhecer; a risada rouca do pai consertando a cerca do celeiro; os olhos azuis de seu irmão mais novo, Kael, correndo pelo campo atrás das borboletas.
Agora, toda aquela vida virara cinza.
A Ordem tirara tudo dela. Ela não vira os corpos — a fumaça era espessa demais e alguém a empurrara para longe antes que pudesse alcançá-los. Mas sabia. No fundo da alma, ela sabia que estava completamente sozinha.
Apoiando as mãos na lama gelada, erguer-se foi um ato de pura teimosia. As pernas tremiam, e o ombro esquerdo latejava com uma dor pontuda que cortava o ar dos pulmões. Mas não havia lágrimas. No lugar do choro, uma raiva pura, antiga e perigosa acendeu-se no peito.
Cuspiu um fio de sangue na lama.
— Olha só para você... — uma voz masculina e desconhecida emergiu da névoa.
Zaya ergueu o queixo.
Passos lentos cortavam a chuva. Um homem alto, usando um sobretudo escuro que parecia engolir a pouca luz ao redor, aproximou-se sem pressa. A sombra do capuz escondia seu rosto, mas seus olhos — dois pontos de gelo cinzento — brilhavam com uma intensidade que trespassava a tempestade.
Ele não ofereceu ajuda. Não demonstrou pena. Apenas parou a alguns passos, observando-a como quem estuda uma fera encurralada.
— Qualquer outra garota estaria implorando pela vida — disse ele. A voz grave e calma cortou o som da tempestade como uma lâmina. — Mas você... seus olhos estão em chamas.
Zaya firmou os pés no chão, mesmo vacilando. Encarou a sombra à sua frente com o olhar afiado de quem já não tinha nada a perder. Seus punhos estavam tão fechados que as unhas cravavam a pele das palmas.
— Eu não quero ajuda — a voz dela saiu rouca, mas carregava um veneno que a chuva jamais lavaria. — Eu quero o sangue de quem fez isso.
O homem deu um meio sorriso imperceptível na escuridão do capuz.
— A Ordem.
O nome caiu entre eles com o peso de uma sepultura.
— Eles vieram por causa do que seu pai sabia — continuou ele, dando um passo à frente. — Por causa do que ele se recusou a entregar. E não vão parar. Vão queimar cada vila até encontrarem o que procuram. Sua família foi apenas o começo.
Zaya sentiu o peito contrair.
— Meu pai... ele nunca fez mal a ninguém.
— O mundo não se importa com a bondade, garota. A Ordem não precisa de motivos para destruir. Você pode passar o resto da vida fugindo até que eles a encontrem... ou pode aprender a lutar.
A garota ergueu o rosto para a tempestade, deixando que as gotas frias limpassem o sangue seco de sua pele. Fechou os olhos por um segundo. Viu o sorriso da mãe, a força do pai, a inocência de Kael. Quando os abriu, a dor derretera. Restara a promessa.
— O que você está oferecendo?
O homem estendeu a mão. A palma coberta por uma luva escura parecia um convite sem volta.
— Eu posso transformar você em uma arma. Treinar seu corpo, sua mente e sua alma até que não reste qualquer fraqueza. Quando eu terminar, a Ordem aprenderá a temer o seu nome.
— Por que faria isso? — a voz dela desconfiou. — O que você ganha?
— Digamos que tenho minhas próprias contas a acertar. E você... você é a melhor vingança que eu poderia moldar.
Zaya encarou a mão estendida. O vento uivou, erguendo brasas e cinzas ao redor deles. Sem hesitar mais, ela tocou a luva escura. A mão do homem era firme e fria como mármore.
— Você vai me ensinar a matá-los?
— Vou te ensinar a sobreviver. O resto virá naturalmente.
Ele a puxou para cima com uma facilidade assustadora.
— Meu nome é Kaelen. E a partir de hoje, você deixa de ser a garota que perdeu tudo. Você é a tempestade que eles não viram chegar.
— E o que eu sou agora? — ela sussurrou, sentindo a força teimosa dos seus próprios dedos machucados.
Kaelen olhou para as ruínas incandescentes.
— Você é a cinza que vai incendiar o império deles.
Os dias viraram semanas. As semanas, meses.
A montanha era um monstro implacável. Kaelen a levara para um refúgio escondido entre picos esquecidos, onde o vento uivava como matilhas famintas e o ar era tão rarefeito que rasgava os pulmões.
O treinamento começou na primeira noite. Exausta, ferida e faminta, Zaya foi arrastada para fora da cabana e jogada na neve profunda.
— Levante — ordenou Kaelen.
Suas pernas congeladas não responderam.
— Levante!
Com um grunhido, ela forçou os músculos extenuados e colocou-se de pé, oscilando.
— Você acha que a Ordem vai esperar você descansar? — ele caminhava ao redor dela, as botas afundando na neve fresca. — Eles vão te encontrar de joelhos. E vão cortar sua garganta sem piscar.
Um golpe rápido no estômago a fez desabar na neve, sem ar.
— Levante.
Ela se ergueu. Ele a derrubou.
— Levante!
O gosto de ferro inundou sua boca.
— De novo! De novo!
O frio queimava a pele. A neve encharcava as roupas. Mas a cada queda, Zaya encontrava um motivo para ficar de pé. Em algum momento, Kaelen parou. Observou-a por um longo segundo, fitando o fogo inacabável naqueles olhos castanhos.
— Você tem o que a maioria nunca terá — murmurou ele. — Não é força bruta. É a recusa absoluta em ser destruída. Isso é mais mortal do que qualquer aço.
Cinco anos se passaram.
Cinco anos de um martelar constante sobre a alma de Zaya. Ela aprendeu a lutar com lâminas, punhos, sombras e silêncio. Aprendeu a ler o impulso no corpo de um homem antes mesmo que ele movesse um músculo. Aprendeu a transformar a dor em foco.
Kaelen não era gentil. Ele a quebrava todos os dias, e todos os dias Zaya se reconstruía mais afiada. Com o tempo, ele se tornou sua única constante: um mentor severo, uma âncora no abismo do seu ódio. O coração bondoso que um dia pulsara nela não morrera; fora trancado em uma armadura de aço, fumaça e cicatrizes.
Aos vinte anos, Zaya era uma obra-prima da sobrevivência.
O corpo pequeno e franzino dera lugar a músculos magros e precisão cirúrgica. Seus movimentos tinham a fluidez de um predador. Os olhos castanhos, antes ingênuos, tornaram-se dois poços de cálculo e gelo.
Kaelen a observava enquanto ela finalizava uma sequência complexa com duas lâminas curtas. O metal cortava o ar congelado com um silvo perfeito. Quando ela parou, a respiração ritmada era o único som na montanha.
— Olhe para as suas mãos — disse Kaelen, aproximando-se.
Ela obedeceu.
— Elas não tremem. Você não é mais minha aluna, Zaya. É a lâmina mais afiada que este mundo já gerou.
— O treino acabou?
— Acabou.
Um vazio estranho ecoou no peito dela.
Kaelen estendeu um pedaço de pergaminho envelhecido. Ela o pegou com dedos firmes. Seus olhos percorreram a tinta preta.
Um nome. Uma cidade.
— Tristan Cole — pronunciou Zaya. O nome tinha o peso de uma sentença.
— O líder de A Ordem — confirmou Kaelen. — O homem que assinou a destruição da sua casa.
O ódio dentro dela não explodiu; concentrou-se, denso e letal.
— Como eu chego até ele?
— Há um posto avançado na cidade de Valdris. Você vai se infiltrar, tornar-se uma deles e subir na hierarquia. Quando estiver ao alcance... cortará a cabeça da serpente.
— Quanto tempo?
— O tempo que for preciso. Você tem a maior vantagem de todas: eles não sabem que você existe. E alguém que não tem nada a perder é a criatura mais perigosa do mundo.
Ao amanhecer, o céu tingiu-se de tom carmesim.
Zaya ajustou as lâminas duplas na cintura e ajeitou o casaco escuro. Kaelen permanecia na soleira da cabana, os braços cruzados.
Ela parou por um instante. Encarou o homem que a tirara da lama e a moldara na escuridão. Havia mil coisas a dizer, mas ela apenas inclinou a cabeça em respeito.
— Obrigada.
Kaelen assentiu, curto e solene.
— Vá. Faça o império deles ruir.
Zaya virou-se e começou a descer a montanha. O vento soprava forte, desordenando seus cabelos escuros. Na mente, ela passou a mão pelas memórias do pai, da mãe, de Kael... do cheiro do pão. Empurrou tudo para o fundo do peito, trancando a gaveta com chaves de ferro.
Parou à beira do penhasco, contemplando a silhueta distante de Valdris, recortada contra o horizonte como uma mancha de tinta sob a luz nascente.
Tocou a cicatriz na palma da mão direita — o corte do primeiro dia de treino.
— Para destruir o monstro — murmurou para a tempestade —, preciso me tornar o pesadelo dele.
Mas, ao dar o primeiro passo penhasco abaixo, Zaya parou.
Um ruído estranho veio com o vento.
Leve. Distante.
Não era a risada macia da mãe, nem o eco rouco do pai ou os gritos de infância de Kael. Era um som diferente, que fez seus dedos congelarem sobre o cabo do punhal. O coração trancado no peito deu um baque descompassado — o primeiro choque em cinco anos de silêncio.
Zaya fechou os olhos. Quando os abriu, o gelo retornara ao seu olhar, mas uma fenda imperceptível fora aberta na armadura.
Apertou a lâmina até os nós dos dedos contrairem.
— Maldito seja... — sussurrou para o vazio.
Ajustou o passo e continuou a descida em direção a Valdris, sem saber que o destino já havia começado a tecer a sua teia.