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Amor ou Deadline?

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Resumo

Ela desistiu de se importar com o trabalho. Ele acredita que trabalho é a solução para tudo. Clara levou anos para construir a vida profissional que sempre sonhou: emprego estável, salário mediano, pouco trabalho e colegas que gostam da sua companhia. Tudo isso exigiu anos de dedicação à construção da personalidade perfeita. Querida e meiga, mas não a ponto de despertar desconfiança. Prestativa e disponível, mas nunca a tempo de receber mais demandas. O importante é não levar preocupações para casa. Isso, porém, muda com a chegada de Henrique e seu plano para resolver de vez a baixa produtividade da Seção. Como duas pessoas tão incompatíveis vão conseguir trabalhar juntas? E o que acontece quando o problema deixa de ser profissional?

Gênero
Romance,Drama
Autor
Lise
Status
há 5 dias
Capítulos
5
Classificação
5.0 (1 avaliação)
Classificação Etária
13+

Capítulo 1 - O fim de quase uma década

O som do despertador, inútil, toca pela segunda vez. Clara, acordada há quase uma hora, alcança o celular, dividida entre desligá-lo ou adiá-lo em mais cinco minutos. O que se segue então são os mesmos passos, sons e atos de todos os dias da semana: lavar o rosto, fazer café, escovar os dentes, fazer o skincare e a maquiagem, se vestir, tomar café da manhã… Aos poucos, a cara amassada e sisuda vai sendo substituída por um rosto jovem, com rubor artificialmente criado por blush em tom de rosa precisamente aplicado nas maçãs do rosto e nariz. Lábios e pálpebras rosados, poucos poderiam afirmar que aquela moça já contava vinte e nove anos.

Para hoje, uma saia jeans midi bordada com flores azuis e uma camisa branca sem mangas; brincos e colar dourados delicados e um salto nude, puxado para o rosa. As laterais do cabelo comprido puxadas para trás com algumas mechas escapando.

Assim, Clara sai de casa para o metrô e, do metrô, para o trabalho. Um prédio alto em uma avenida larga, a empresa de Clara ocupa dois andares inteiros. A Seção fica no sétimo andar, terceira porta à direita. Uma sala ampla e bem iluminada por janelas espelhadas pelo lado de fora. No extremo oposto das mesas duplas enfileiradas, duas portas. Na primeira, uma grande mesa de reunião. Na ponta da mesa, um painel branco para projeções. Na segunda porta, uma sala menor onde despachava Patrícia Nogueira, chefe da Seção.

Clara entra na Seção sorridente, cumprimenta seus colegas com leveza e recebe variadas reações: sorrisos, “bom dias”, acenos de cabeça sem levantar o olhar, e desinteresse daqueles já instalados em suas cadeiras com seus fones de ouvido.

— E-mail — disse Marina, sua amiga e colega de mesa ao lado.

Clara ligou o computador ainda guardando sua bolsa e se acomodando na cadeira. Imediatamente entrou em sua caixa de e-mail. Patrícia, a chefe da Seção, marcara uma reunião em meia hora para alinhamento.

— Tão cedo — exclamou.

— Não é? — respondeu Marina. — Estava ainda em busca de um café.

— De novo?

— Mal consegui escovar os dentes! — confessou de forma pouco convincente considerando a roupa e maquiagem impecáveis.

— O café pode deixar comigo. — Sorriu Clara.

Patrícia era uma mulher em torno dos seus cinquenta anos; trabalhava nessa empresa antes de todos os funcionários da Seção e chegara à função atual um ano antes da admissão de Clara; era bem vista por seus subordinados e tinha um olhar afetuoso. Não era difícil entender o que a levou para aquela função: era organizada, se atualizava constantemente e sabia trocar o toner da impressora e conectar o projetor, habilidade nem sempre encontrada em funcionários mais experientes. Tinha experiência suficiente para encontrar respostas rápidas aos principais contratempos do dia a dia sem jamais perder a calma. Talvez lhe faltasse senso de urgência, mas jamais serenidade.

Hoje, no entanto, Patrícia carregava um raro olhar preocupado. No painel às suas costas, gráficos com as metas semestrais, ou melhor, com o não atingimento das metas semestrais. Clara olhava do gráfico para Patrícia e depois para o gráfico novamente. Improvável que esta seja a fonte de preocupação, pensou, pois os gráficos mostram a mesma coisa já há alguns anos. Seria talvez um problema pessoal? Clara esboçou um sorriso para a Patrícia, como quem reforçava o clima amistoso sempre estimulado pela sua superiora imediata. Patrícia, no entanto, não demonstrou reação.

— Precisamos alinhar algumas ações. Como vocês podem ver, nada do que tentamos agora surtiu efeito. Gustavo, distribua as cópias dos relatórios que pedi ontem.

Gustavo era uma das mais recentes contratações. Uma aposta para melhorar a performance da equipe. Um dos poucos funcionários com curso superior na área. Era rápido e polido. Todos sabiam, não ficaria nessa função muito tempo, mas isso não desestimulava o seu empenho. Pelo contrário, mostrava a todo tempo sua superioridade e aguardava sua promoção. Talvez substituísse a própria Patrícia, todos pensavam, inclusive eles mesmos.

— Clara, qual o status da demanda da semana passada?

— Ainda está em andamento.

Seguiu-se o silêncio, quebrado rapidamente por Patrícia.

— Precisamos diminuir nosso backlog. Clara, nos traga um café, por gentileza.

— Claro — respondeu com um largo sorriso enquanto se retirava da sala para a cozinha localizada em frente à Seção.

Na cozinha, Clara seguiu com seu costumeiro approach. Fez não só café, mas serviu biscoitos. Descafeinado, com açúcar, sem açúcar. Ela sabia exatamente o que cada colega gostava e entregava a demanda com eficiência e um sorriso nos lábios. Clara sabia que Patrícia apreciava um bom clima de trabalho tanto quanto a entrega de qualquer demanda. Por isso, nos anos em que trabalhava na empresa, aprendeu a se equilibrar entre entregas mínimas e atendimento às demandas extras profissionais. Não tinha expectativa de promoção, preferia manter aquele emprego pouco exigente. O salário não era lá grandes coisas, mas atendia às necessidades de uma mulher solteira, sem filhos e com apartamento próprio. Sabia que isso poderia gerar arrependimentos no futuro, mas qual escolha não geraria?

Sobreviver naquele ambiente corporativo podia ser muito difícil para os ambiciosos. Concorrência, deslealdade, nos oito anos que passara ali já vira de tudo. Fofocas e rumores inacreditáveis, sorrisos mais falsos que uma nota de três, traições de todos os tipos. Mas ela não corria riscos. A ingênua, meiga e ineficiente Clara não oferecia perigo a ninguém, e fazia bons cafés.

Ser prestativo poderia ser muito mal visto em qualquer funcionário competente: “olha ele, acha que ninguém percebe como está puxando o saco da Patrícia”. Mas essa frase jamais seria dita à Clara, que mal conseguia cumprir um mísero deadline, muito menos se candidatar a melhores oportunidades. Sua disponibilidade para buscar materiais no estoque, tirar cópias e levar documentos para cima e para baixo sem nunca prejudicar ninguém encontrou boa serventia na Seção. Uma estagiária um pouco cara talvez, mas ninguém ali pagava o seu salário.

Clara logo percebeu que se mostrar ocupada servia tanto quanto se dispor a ajudar. Ela tirava cópias desnecessárias a pedido de colegas de trabalho inexistentes, levava papéis e qualquer outra coisa que pudesse carregar de um lado para o outro com passos objetivos como se soubesse o que estava fazendo. O segredo, pensava, era sempre parecer ocupada. Assim, garantia os seus sete mil passos diários contados em seu smartwatch mesmo sendo uma trabalhadora de escritório. Por mais estranho que possa parecer, ninguém perguntava nada a alguém que parecia estar sempre ocupado.

Quando Clara voltou à sala de reuniões, a conversa já estava avançada.

— Precisamos manter esse mindset se não quisermos que a nossa situação escale — dizia Patrícia.

Essa última palavra fez a tensão escalar no ambiente. Clara, servindo os cafés, parecia nem notar; mas por trás do sorriso se perguntava como uma Seção tão pouco produtiva ainda existia após tantos anos.

— Amanhã receberemos um feedback importante da empresa.

E então o alinhamento estava claro. Amanhã! Receberemos uma visita? Uma inspetoria? Haveria mudanças tangíveis? Nada disso permanecia na mente de Clara por muito tempo, estava mais preocupada com o que haveria de almoço. Marina, por sua vez, empalidecia.

— Tome o seu café, eu mesma fiz. — Tentava distrair a amiga, as duas já sentadas em suas respectivas mesas.

— Como você consegue se manter tão calma? E se eles olharem minha última entrega? Será que vão ver algum problema? E se diminuírem o budget da Seção e houver cortes de pessoal?

— Eles quem, Marina?

— O feedback!

— Não está claro se virá alguém, talvez seja só um e-mail. — Fingiu otimismo. — Me deixa ver a sua última entrega. Já enviou?

— Mas você nem terminou a sua! Sério, você precisa se preocupar mais com o seu trabalho.

Nesse momento, Gustavo, que vinha da sala de Patrícia, se aproximou. Ele andava confiante, era bonito e carismático, mas, talvez por isso, não inspirava confiança além do trabalho.

— Clara, precisa de ajuda com a sua demanda? Posso ver o que tem até agora?

Clara não tinha nada, aliás, tinha esquecido completamente sobre o que era.

— Você não devia fazer isso! — disse, fazendo charme. — Dessa vez eu tenho tudo sob controle, não se preocupe.

Diante da assertividade de Clara, Gustavo não conseguiu insistir. Após alguns segundos de silêncio, ele riu teatralmente.

— Ok, mas se até o final do dia você não tiver terminado, me procure.

— Gu — chamou Marina, fazendo ainda mais charme com sua personalidade pick me. — Já que você está procurando tanto ajudar, poderia dar uma olhada na minha entrega. Preciso enviar após o almoço.

Clara observava o comportamento da amiga, principal inspiração de sua persona no trabalho, que lhe mostrava o que fazer e também qual linha não ultrapassar. Gustavo, colocado em uma situação inesperada, deu um sorriso quase convincente e assentiu:

— Claro, me envie antes do almoço e verei brevemente.

“Verei brevemente” às vésperas do deadline significava claramente “não espere muito”, concluiu Clara.

— Obrigada, Gu!

— Por que pediu pra ele, se disse que não quer me mostrar? — perguntou assim que Gustavo estava distante o suficiente para não ouvir.

— Porque você está muito ocupada — desconversou Marina.

— Ok. Você já terminou? — Parou de insistir.

— Praticamente.

— Então entregue para mim, eu levarei para ele.

Marina abriu um sorriso largo:

— Por quê? Te incomoda que eu tenha esse tempo com ele?

— Ah, de novo isso — disse Clara, revirando os olhos.

— Você sabe que ele está afim.

— Não importa, eu…

— Então por que quer entregar para ele? — interrompeu.

— Apenas me entregue. — Clara fechou a cara, encarou o computador e performou a funcionária ocupada.

Foi o suficiente para Marina voltar para o próprio trabalho ainda com um sorriso estampado no rosto. Um romance no trabalho era tudo que queria para alegrar os seus dias, mesmo que não fizesse parte dele, só ouvir as histórias, notar os sinais, seria o suficiente.

Menos de uma hora depois, Marina enviou sua entrega à impressora.

— Deixe que eu pegue. — Adiantou-se Clara.

Ainda em frente à impressora, Clara começou a leitura do trabalho da amiga. Não era ruim, uma vez que Marina já executava esse tipo de demanda há alguns anos e Patrícia costumava ser leniente; mas não era bom para um feedback misterioso de amanhã. A sua colega de trabalho, de fato, tinha com o que se preocupar. Havia pequenos erros de dados pouco perceptíveis para uma rápida olhada e a formatação das tabelas e gráficos também era amadora.

Voltando para a mesa, Clara dissimulou:

— Marina, a impressão ficou com qualidade ruim, me mande por e-mail que eu usarei meu pen drive para imprimir.

Marina, acostumada a não entender da psicologia da impressora, enviou seu trabalho sem nem pensar. Clara foi à impressora, fez uma cópia aleatória e disse ter entregue a Gustavo. Depois se ocupou em melhorar o trabalho da amiga, não como se fosse o próprio, pois, neste caso, entregaria assim mesmo e atrasado, mas como alguém preocupada com um feedback.

— Almoço? — perguntou Gustavo um tempo depois.

Marina se levantou e pegou suas coisas, mas Clara se manteve no mesmo lugar:

— Estou muito ocupada, vou demorar um pouco.

— A gente te espera — sugeriu Marina.

— Não, por favor, assim vou ficar pressionada. Aproveitem o almoço.

Gustavo, não muito satisfeito, disse:

— Você não deveria trabalhar na hora do almoço. Não esqueça que eu posso te ajudar.

Patrícia realmente fez um ótimo trabalho de articulação e gestão de relações interpessoais com a sua equipe. Tal disposição em ajudar um ao outro não era muito comum, mas claro que isso se justificava pela prestatividade e simpatia de Clara, sempre disposta a ajudar em pequenos afazeres do dia a dia, mas sem nunca dar conta dos seus próprios. Isso não passava despercebido por ninguém, e muitos se perguntavam por que a chefe da Seção era tão generosa com sua funcionária. Mas essa resposta nunca viera, e, enquanto isso, ninguém se furtava das pequenas ajudas que Clara oferecia.

Ela deixou o trabalho final de Marina em cima da mesa de Gustavo, torcendo para que não fosse assunto durante o almoço, o que de fato não foi. Após o almoço, buscou três ou quatro materiais impressos para os colegas, retirou alguns papéis presos das impressoras, trocou um toner, buscou clipes e grampos no estoque, serviu cafés, depositou pessoalmente a entrega de Marina, agora corrigida, na mesa de Patrícia e, apenas depois, sentou-se para fazer a sua demanda. Esta era um pouco mais complicada do que esperava. Após duas horas de concentração, fez sua entrega, com cuidado para que todos os dados estivessem corretos e que os erros de formatação fossem simples o suficiente para Patrícia corrigir. Assim, ainda que não fosse eficiente, não seria inútil. Patrícia olhou brevemente o calhamaço em cima da sua mesa:

— Me enviou por e-mail também?

— Sim, senhora.

Patrícia então olhou para Clara por alguns segundos, fazendo-a se perguntar o que havia de errado.

— Amanhã… Nada. Está tarde. Vai descansar.

— Obrigada. Bom descanso para você também.

Sem querer perguntar sobre o dia seguinte, se retirou de mais um dia de trabalho.

O retorno do trabalho seguia, assim como a manhã, sempre os mesmos passos: chegava a estação de metrô, retirava os saltos e colocava as sapatilhas que mantinha no fundo da bolsa, amarrava os cabelos que já incomodavam, principalmente nos dias de calor, alongava os músculos da face já cansados de sorrir; permitia-se séria após tantas horas de moderada adulação. Quando possível se sentar, se perdia nas redes sociais para que o tempo passasse mais rápido. Quando não, contava cada segundinho para enfim chegar em casa. Ao chegar, tomava banho, retirava a maquiagem e a roupa meiga, vestia-se confortável e sobriamente. Jantava uma marmita congelada e se jogava no sofá.

Finalmente, podia se ocupar com coisas que realmente importam... ou melhor, não importam, mas a interessavam. Séries, filmes, livros… qualquer coisa que a levasse para longe dali, onde não houvesse necessidade de performar feminilidade, simpatia e inabilidade.

Clara gostava da vida que conquistou para si, mas assim como ser uma funcionária eficiente era cansativo, a sua baixa performance programada também tinha seus custos. Amanhã... lembrou-se de Patrícia e sua expressão ao se despedir. Pela primeira vez em anos, no conforto de sua casa, se permitiu se preocupar com o trabalho. Será que suas entregas seriam avaliadas? Estaria ela, após tantos anos de complacência, em risco? E daí? Esse emprego nunca fora planejado para durar para sempre. Mas já foram anos, e agora estava acomodada. Talvez devesse reequilibrar o seu comportamento, contribuir um pouco mais. Só um pouquinho. Mas isso era assunto para amanhã.

As primeiras horas da manhã seguinte transcorreram como todas as outras. Som do despertador, mais cinco minutos, mais cinco, mais dez. Enfim, café passado, rubor artificialmente criado, calça flare jeans clara, sandália de salto, camisa de botões rosa clara, cabelo em um coque alto com mechas soltas, pequenos brincos de pérola.

A caminho do metrô, um pensamento: hoje, seria mais eficiente. Só por hoje.

— Bom dia! — Abriu um largo sorriso ainda na porta da Seção. Seguiu-se um jogral desconjuntado e tenso de “bom dias”. — Todo mundo já chegou assim! Aconteceu alguma coisa? — perguntou em tom baixo para sua amiga e colega da mesa ao lado enquanto sentava-se.

Ao olhar para Marina, reparou nas olheiras acinzentadas mal cobertas pela maquiagem, a cara pálida por trás de um rubor também artificial, as roupas impecavelmente passadas.

— Como consegue estar tão calma? Logo você! — indagou Marina.

Clara sabia o que a amiga queria dizer e atribuiu o excesso de sinceridade ao nervosismo da situação. Se alguém ali deveria se preocupar com o feedback da empresa, essa alguém era a menos produtiva da Seção, Clara Mendes. Pensando se deveria fingir indignação, foi comovida pela tensão do ambiente.

— Exatamente! Se eu estou despreocupada, você deveria se preocupar ainda menos. Vou trazer cafés. — Levantou-se sem ao menos ligar o seu computador e checar e-mails.

Clara se encaminhou para a cozinha em frente à Seção, atravessando o corredor que dava acesso aos elevadores. Preparou dois cafés, como de costume. Com as duas mãos ocupadas, se direcionou para a porta que abriu repentinamente, forçando-a a dar um pulo para trás, desviando do café que escorria das xícaras que equilibrava com dificuldade. Olhou para frente e se deparou com um homem desconhecido. Terno bem cortado e escuro, gravata bem escolhida, cabelos penteados, mas sem exagero. Jovem, mas de olhar firme e sério. Com certeza uma performance oposta a dela.

— Desculpe — disseram ao mesmo tempo.

Clara evitou esboçar qualquer expressão de contrariedade ao estranho que quase a queimou com café. Ele olhou para as mãos de Clara que haviam sido poupadas do café quente, para o chão e depois para si mesmo.

— Espirrou em você?

— Felizmente não — respondeu o desconhecido.

Após segundos incertos durante os quais o homem pensava consigo ainda na porta, Clara perguntou:

— Você quer um café?

O homem então olhou para a cozinha atrás de Clara e pareceu concluir algo em sua mente.

— Estou procurando por Patrícia Nogueira.

— Ah, é a porta atrás do senhor.

Ele virou a cabeça para olhar a porta, agradeceu e adentrou a Seção.

Ainda parada na porta, com os dois cafés na mão e uma mancha no chão, Clara conseguiu ouvir as engrenagens dentro da sua própria cabeça rodarem: o feedback chegou.

Sem pressa, Clara limpou o chão e voltou para a Seção. O ar estava ainda mais pesado que antes. Todos tinham o olhar fixo em seus computadores, ocupados e eficientes, eretos em suas cadeiras sem nem piscar; as mãos digitavam sem parar. A cada dez segundos, desviavam o olhar para a sala de Patrícia, sem mexer a cabeça. Clara se perguntou o quanto subestimara a situação. Ligou o computador, acessou seus e-mails: nada, nenhuma demanda. Após a entrega de ontem, Patrícia não lhe enviara nenhuma instrução. Passou então a encarar a porta da sala da chefe da Seção, quando esta abriu. O ar já tenso se petrificou. O barulho dos teclados silenciou em uníssono por meio segundo. Apenas Clara não digitava.

— Clara, querida — disse Patrícia, afavelmente. — Traga-nos dois cafés. Um sem açúcar, por favor. O meu você já sabe.

Clara sorriu:

— Pode deixar, Patrícia. — E retornou para a cozinha com passos leves, em contraste com toda a tensão do ambiente.

Mas ao fechar a porta da Seção, finalmente deixou a tensão dominar. Patrícia sorria, é verdade, mas isso indicava pouco. Ontem, sua chefe queria lhe dizer algo. Seria esse pedido de café apenas uma desculpa para demiti-la de forma discreta, sem deixar os seus funcionários ainda mais apreensivos? Clara respirou fundo. Tudo bem, pensou, esse emprego não era para sempre. Mas sentiu um aperto no peito diante do futuro cada vez mais inevitável. Sempre soube que não poderia levar a vida assim para sempre, mas se iludiu.

Preparou o café e seguiu para a sala de Patrícia com uma bandeja na mão. A cada passo sentia os olhares dos colegas a seguindo, agora ninguém mais digitava. Evitou os olhares de todos, especialmente de Marina que, sabia, não conseguiria disfarçar o nervosismo.

Após bater e receber a permissão de abri-la com a voz de Patrícia, Clara cruzou a porta leve com um sorriso no rosto. Sua chefe e o desconhecido não estavam sentados na mesa de Patrícia, mas sim em duas poltronas localizadas no canto da sala com uma pequena mesa ao centro. Patrícia organizou as papeladas da mesa para dar espaço ao café.

— Aqui está o seu, Patrícia. — Serviu sua chefe com moderada adulação. — E aqui está o café sem açúcar para o senhor…

— Henrique — disse o desconhecido, sem levantar os olhos dos papéis que analisava. Ele se sentava confortavelmente na poltrona, costas encostadas no espaldar, pernas cruzadas; sério, mergulhado nos dados diante de si, mas sem esboçar reação.

— É inegável que temos um gargalo. — Patrícia quebrou o silêncio. — Mas também é inegável a sinergia da minha equipe. Tenho certeza de que em pouco tempo conseguimos repriorizar o backlog e alavancar nossos resultados.

O desconhecido não respondeu, apenas continuou a olhar os papéis. Clara nunca havia visto Patrícia dessa forma, sentada diante de alguém em posição mais confortável que ela, se explicando para alguém visivelmente acima. Era fato: a baixa produtividade da Seção havia escalonado e, agora, prendiam a respiração enquanto naquela sala o destino de todos era discutido.

Clara retornou ao seu assento. Sentiu os olhares cada vez mais impacientes, seus colegas a escrutinando em busca do menor sinal. Mas ela, após anos de performance, andou cantarolando baixinho, como se absolutamente nada houvesse de errado.

— Clara! — exclamou Marina, exasperada. — Pelo amor de Deus! Diga alguma coisa! — implorou.

Clara, que conhecia a amiga há anos, nunca a havia visto assim, os olhos quase saltando da cara, em total contraste com sua meiguice natural e meticulosidade de sua aparência especialmente executada para hoje.

— Já disse, não sei por que tanta apreensão. Eles estão conversando na sala; só isso.

— Conversando sobre o que? — Marina, que mal continha o tom de voz, fez todos os rostos virarem para Clara na expectativa daquela resposta. A Seção num silêncio sepulcral.

— Ah, não sei. Você sabe como tenho dificuldade de entender as coisas: follow-up, briefing, stakeholder, kick-off. Eu precisaria engolir um dicionário para entender do que eles estavam falando.

Se não fosse pela tensão reinante no ambiente, esse comentário teria gerado risadas pouco contidas e maliciosas. Afinal, o que esperar de Clara? Mas em vez disso, houve olhares decepcionados e inconformados. Pelo menos dessa vez, queriam contar com uma colega de trabalho em quem pudessem depositar confiança.

A sala de Patrícia permaneceu fechada durante toda a manhã. No horário do almoço, os funcionários da Seção olharam um para o outro, procurando saber se deveriam se ausentar ou ficar de plantão, à espreita. Como se isso fizesse diferença. No fim, todos se retiraram, talvez para respirar um ar longe daquela sala cada vez mais apertada. Clara, sem demandas, circulou a manhã inteira: impressões, materiais no estoque, cafés para todos. Escreveu linhas aleatórias só para ouvir o som do teclado e saiu para almoçar.

— Gu — chamou Marina enquanto caminhavam de volta para o prédio onde ficava a empresa. — Estou tão nervosa!

— Não precisa. Eu vi a sua última entrega. Estava perfeita.

— Jura? Você nem me disse nada.

— Porque não precisava. Não havia o que tirar nem pôr.

Clara, que caminhava ao lado dos colegas, ouvia satisfeita: seu trabalho dera resultado, Marina podia ficar tranquila. Restava saber o que seria de si após esse longo feedback.

De volta à Seção, todos um pouco mais relaxados, voltaram ao seu comportamento quase habitual: conversas paralelas, idas à cozinha e ao banheiro; mas ninguém se arriscava a longas escapadas ou ao fone de ouvido. Ainda estavam à espera. E esta não demorou.

Patrícia se posicionou diante de todos com seu sorriso habitual, Henrique ao lado.

— Quero que todos conheçam Henrique Almeida. Ele irá me substituir a partir de hoje. — Todos seguraram suas reações, exceto Marina, que respirou fundo e esboçou um misto de surpresa e lamento. — Henrique foi designado para ocupar o meu lugar e está muito bem preparado para isso. Eu já o atualizei sobre o nosso trabalho nos últimos anos em que estive à frente da Seção; sobre cada um de vocês, nossas conquistas e nossos gargalos. — Continuou em tom controlado, sem dar brecha para interpretações sobre o seu estado emocional. — Espero que sejam tão empenhados daqui para frente quanto foram enquanto tive a oportunidade de liderá-los. Quero agradecer a cada um de vocês pelo trabalho que fizemos juntos e assegurar que estarão em boas mãos. — Fez sinal para Henrique prosseguir.

— Paty! — Marina deixou escapar um choro baixo.

— Eu sou Henrique Almeida, estarei à frente da Seção daqui para frente. Como disse Patrícia, já estou a par dos assuntos mais importantes do nosso trabalho. A principal preocupação, como vocês já sabem, é atingir as nossas metas. — O novo chefe também usava um tom controlado, ignorando a expressão de surpresa da maioria dos funcionários à sua volta. — Tenho expectativas de que isso se resolva em um semestre. Pude perceber muitas práticas arcaicas ainda nesta Seção, o que significa que com pequenos ajustes no fluxo de demandas e entregas já conseguimos bons resultados.

Olhou em volta antes de continuar:

— Sei que Patrícia fez um excelente trabalho na gestão de relações interpessoais e conto com isso para implantar nosso novo modelo de gestão de processos. Nos próximos dias teremos muitas reuniões one-on-one, quando pretendo orientar cada um de vocês acerca do seu rendimento. Por ora, podem voltar aos seus afazeres como estão acostumados.

Após um silêncio, todos voltaram aos seus computadores; alguns murmuraram boas-vindas, mas Marina se dirigiu até Patrícia e lhe deu um abraço com lágrimas nos olhos. A ex-chefe deu pequenas batidinhas em suas costas.

— Gustavo — chamou o novo chefe da Seção — venha até a minha sala em dez minutos; precisamos alinhar algumas coisas.

Gustavo, muito profissionalmente, disfarçava suas expressões, mas Clara, acostumada ao olhar confiante e amistoso do colega, sabia que por trás da feição neutra estava a surpresa e o ressentimento por não ocupar aquele cargo de chefia oferecido a um desconhecido. Ser chamado primeiro para aquela conversa de alinhamento era o mínimo para o funcionário mais esclarecido e produtivo da Seção, mas não aplacava em nada a traição da empresa.

Clara, por sua vez, sentada em sua cadeira à espera de sua vez de se despedir de Patrícia, percebia que estava em uma situação muito delicada. Levantou-se e se dirigiu à superiora que deixaria saudade. Esta a olhou por alguns segundos, abriu e fechou os lábios algumas vezes como quem queria dizer algo, mas não encontrava palavras. E então disse:

— Quando você chegou aqui... não, todo esse tempo, eu sempre soube que você tinha muito a oferecer. Espero que consiga mostrar que eu sempre estive certa. Até mais, querida. — Deu um pequeno toque em seu rosto e se virou para cumprimentar os seus antigos subordinados.

O estômago de Clara afundou. Talvez não tenha sido sua personalidade e performance tão meticulosamente criada que a manteve por tantos anos aqui. Memórias dos seus primeiros anos passaram em sua mente como um flash enquanto olhava a porta agora fechada da sala em que Henrique e Gustavo se reuniam nesse momento.

A partir daquele momento, a vida tranquila que construíra ao longo dos anos não existia mais.

Hoje, levaria preocupação para casa.

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