Capítulo Um: A Cidade Que Me Odeia
O ônibus deixou Moara na beira da estrada e seguiu sem esperar que ela ajeitasse a mochila. A poeira assentou devagar sobre o acostamento, cobrindo as folhas pisadas e a barra da calça. Diante dela, a ponte de madeira atravessava um igarapé estreito, quase escondido sob a vegetação. Depois da ponte começava a Vila do Rio Claro. Não havia placa. Só duas estacas com tinta azul descascada e, mais adiante, os telhados baixos entre as árvores.
Moara ficou parada até o barulho do motor desaparecer. A viagem desde a cidade maior terminara num ponto em que o motorista se recusara a ir além. Não por falta de estrada, explicara, mas porque o trecho depois da ponte ficava ruim quando chovia. Não estava chovendo. Ele não oferecera outro motivo.
Ela puxou a alça da mala e atravessou. O assoalho cedeu sob o peso e rangeu sob seus passos. A água passava escura por baixo, carregando um ramo de ingá que bateu uma vez num pilar e se soltou. No meio da ponte, chegou até ela um cheiro de folhas amassadas tão nítido que o diesel e o suor da viagem pareceram vir de outro lugar.
Do lado de lá, a rua principal era de terra compactada. Havia casas de madeira, outras de tijolo sem reboco, uma oficina com a porta aberta e uma venda de balcão estreito. O calor se agarrava à pele, mas nuvens carregadas escondiam o sol. Moara reconheceu o telhado verde da igreja, embora não se lembrasse de ter estado perto dele. A lembrança mais antiga da vila era um conjunto de imagens sem ordem: uma varanda com rede vermelha, o cheiro de café queimado, a mão de Jaci apertando a sua e uma voz feminina dizendo que ela não devia ter vindo.
Um rádio tocava brega atrás da oficina. O homem que trabalhava ali parou de lixar uma peça quando Moara passou. Não a cumprimentou. Na venda, uma mulher que pesava farinha se inclinou para sussurrar alguma coisa ao rapaz do caixa. Os dois olharam para a cicatriz estreita que subia de seu pulso até desaparecer sob a manga. O rapaz fechou a gaveta com um baque.
Moara não diminuiu o passo. Tinha ouvido a própria história contada por estranhos antes. A menina que a mãe escondia. A sétima filha de uma sétima filha, a filha que não devia existir. A maldição, embora ninguém tivesse coragem de pronunciá-la na frente dela.
A casa dos Moreira ficava numa rua lateral, atrás de um muro baixo e de um pé de taperebá que entortava sobre o portão. Moara lembrava do caminho pelo mapa desenhado no verso de um envelope, mas não precisou conferi-lo. O portão ainda tinha a mesma dobradiça torta. A casa, porém, parecia menor do que na lembrança. A tinta branca descascava junto às janelas e um balde recolhia água da goteira da varanda, mesmo sem chuva.
Ela bateu uma vez. Ouviu passos dentro da casa, depois o ruído de uma chave. Dona Cida abriu a porta sem perguntar quem era. Os cabelos brancos estavam presos num coque apertado e a blusa escura não tinha um amassado. Seus olhos percorreram a mala, o rosto da neta, as mãos marcadas.
— Você demorou.
— A senhora disse que eu podia vir.
— Disse que podia procurar sua mãe. Não disse que a casa estava esperando por você.
Moara segurou o cabo da mala com mais força. A resposta veio seca, mas não a surpreendeu. Cida tinha o mesmo jeito de falar nas raras ligações que fizera: cada frase parecia corrigir uma falta que Moara ainda não cometera.
— Não tenho outro lugar para ficar.
Cida abriu espaço para ela passar. Moara entrou com a mala. O piso frio da sala era de ladrilho antigo, rachado perto da porta. Sobre um aparador havia retratos de parentes que ela não conhecia, todos em molduras escuras. Nenhum mostrava Jaci. Na parede, uma área retangular mais clara marcava o lugar de um quadro retirado. O sol que entrava pela janela não alcançava aquela marca.
— Faz quanto tempo? — perguntou Moara.
Cida fechou a porta e girou a chave.
— Três meses.
A palavra não combinava com o tamanho do silêncio que a acompanhava. Jaci desaparecera depois de sair para comprar remédios numa cidade vizinha. O carro tinha sido encontrado numa estrada vicinal, com a chave no contato e a bolsa no banco. A polícia perguntara aos moradores durante dois dias. Depois deixara de voltar. Moara soubera do desaparecimento por uma mensagem curta de um número desconhecido, enviada semanas depois. A avó atendera suas ligações, mas nunca dissera mais do que precisava.
— Por que não me avisou?
— Eu não sabia onde você estava.
— A senhora sabia como falar comigo.
Cida abriu a boca, fechou-a e se voltou para a mesa, onde havia uma chaleira morna e duas xícaras. O gesto de buscar um pano para secar uma mancha que já estava seca foi uma resposta mais clara do que qualquer desculpa.
— Jaci fez questão de que ninguém soubesse onde você morava — disse, por fim. — Não era segredo meu para quebrar.
— Mas agora a senhora sabe onde eu estou.
— Agora você veio até aqui.
Moara deixou a pergunta que queria fazer repousar entre elas. Se Cida sabia onde Jaci fora vista pela última vez, por que não tinha procurado melhor? Se sabia que a mãe corria risco, por que não avisara? A avó parecia ouvir cada pergunta sem que ela fosse dita e se recusava a responder até às que Moara fazia em voz alta.
Cida indicou o quarto dos fundos. A cama estreita estava feita com um lençol claro, e a janela dava para o quintal, onde cresciam taiobas, capim alto e uma fileira de ervas em latas reaproveitadas. A mala ocupou quase todo o espaço entre a cama e o armário. Moara colocou-a no chão.
— Não ande sozinha depois que escurecer — disse Cida à porta. — E não vá perguntar aos vizinhos sobre sua mãe.
— A senhora quer que eu fique parada esperando?
— Quero que não faça barulho antes de saber quem está escutando.
Moara encarou-a. Cida sustentou o olhar por um instante e desviou primeiro, mas não para fugir. Seus dedos apertaram a borda da porta, brancos nas juntas.
— A senhora está com medo de quê?
— De que você ache que tudo tem explicação simples.
— E tem?
— Não.
Cida saiu antes que Moara pudesse perguntar o que aquilo significava. O corredor ficou vazio. Da cozinha veio o ruído de uma gaveta fechando, depois nenhum outro som.
Moara desfez a mala apenas o necessário. Tinha duas mudas de roupa, uma escova de cabelo, documentos e uma caixa de lata pequena que carregava desde adolescente. Dentro, guardava um botão de madrepérola, uma fotografia dobrada ao meio e uma pulseira feita de sementes escuras. O elástico da pulseira estava frouxo; Jaci o havia trocado duas vezes, mas as sementes continuavam as mesmas, polidas pelo uso. Moara passou o polegar por uma delas. A mãe lhe dera a pulseira quando ela era criança, dizendo que cada semente guardava um caminho de volta. Na época, aquilo lhe parecera um jeito de fazê-la parar de chorar. Depois, Moara passara anos sem pensar no assunto.
A fotografia mostrava Jaci sentada num banco de praça, uma das mãos sobre o ombro da menina que Moara fora. A imagem era pequena e desbotada. O rosto da mãe aparecia de perfil, o cabelo escuro preso atrás da nuca. Moara lembrava daquele dia com uma estranheza incômoda: havia cheiro de chuva, um sorvete derretendo nos dedos e Jaci insistindo que ela olhasse para a câmera. Mas, quando tentava lembrar o que aconteceu antes ou depois, a cena se desfazia.
Guardou a fotografia de novo. A memória não era prova de nada, mas às vezes parecia ter sido arrumada em torno de um vazio.
Ao anoitecer, Cida serviu peixe cozido, farinha e um molho de pimenta numa tigela rachada. Comeram sem acender a luz da sala. A avó não perguntou sobre a viagem. Moara não perguntou sobre o carro de Jaci. Do lado de fora, o rádio da oficina cessou, e um cachorro latiu duas vezes, curto, como se alguém tivesse batido à sua porta.
— A cidade sabe que eu cheguei — disse Moara.
— A cidade sabe tudo antes de você contar.
— Então também sabe que a senhora me deixou vir.
— Ninguém me pediu opinião.
— A senhora podia ter dito não.
Cida parou de mastigar. Por baixo da pele fina, um músculo trabalhou no maxilar.
— Podia.
Ela não acrescentou nada. Moara esperou por uma justificativa, uma acusação, qualquer coisa que desse contorno à palavra. Cida limpou a boca, levantou e levou o próprio prato à pia. A conversa terminou sem que nenhuma das duas saísse satisfeita.
Deitada no quarto, Moara ouviu a casa estalar com a queda da temperatura. O sono não vinha. Do lado de fora, a vila foi se recolhendo: um motor passou na rua, uma televisão perdeu o volume, alguém arrastou uma cadeira na varanda vizinha. Mais tarde, restou apenas o coaxar dos sapos perto do igarapé.
Então a mata atrás do quintal fez um som que não combinava com o vento imóvel. Não chegou como palavra. Foi uma espécie de sopro prolongado, folhas esfregando umas nas outras, seguido de uma nota grave que ela sentiu nos dentes. Moara se sentou. Por um instante, teve certeza de que alguém chamara seu nome do outro lado da cerca.
Abriu a janela. O quintal estava escuro. As folhas das taiobas brilhavam com a umidade, e o pé de taperebá roçava o muro. Nada se movia.
Ao fechar a janela, viu um risco de barro úmido no parapeito, como a marca de dedos que tivessem acabado de tocá-lo. Passou o pano. O barro saiu, mas deixou um cheiro de terra molhada que não havia antes.
Dormiu perto do amanhecer. Sonhou com uma lua sem brilho suspensa sobre as copas e raízes avançando sob a terra, procurando uma passagem. Não havia medo no sonho, apenas a sensação de que a mata conhecia o caminho melhor do que ela.
Acordou com a porta entreaberta.
Um homem alto ocupava o vão, camisa escura colada ao corpo pelo suor, cabelo desalinhado. Uma cicatriz descia do canto do olho esquerdo até o maxilar. Na mão direita, ele segurava uma faca curta, apontada para o chão. Moara puxou o lençol contra o peito e se sentou depressa.
— Quem é você?
O homem não se aproximou.
— Bento.
— O que está fazendo no quarto da minha mãe?
Ele pareceu olhar para a cama como se acabasse de notar que aquele cômodo não era o lugar que procurava. Depois os olhos dele encontraram os dela. Havia algo de cansado em seu rosto, mas não era o cansaço de quem acabara de acordar.
— Fui enviado para matar você.





