Reaprendendo a viver

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Summary

Heloa Sofia Silva tinha 15 anos quando um trágico evento a traumatizou completamente ao ponto de se fechar para vida e para o amor, agora ela tem 19 anos e terá que lidar com esse trauma que voltou para não deixar lá em paz além de decidir se vale a pena deixar o medo de lado para viver o grande amor.

Genre
Romance/Drama
Author
Raissa
Status
Ongoing
Chapters
2
Rating
n/a
Age Rating
18+

1

Terça —feira, oito de março de 2022

Toronto, Canadá.


Mais um dia assim, sem saber se devo obedecer aos meus pensamentos, mais uma noite sonhando com o trauma vivido… Quando isso vai acabar?

Me chamo Heloa Sofia Silva tenho vinte e quatro anos, sou baixa, tenho cabelos cacheados tingidos de pretos, sou branca além de ser bem magra.

Acordei com meu celular tocando um som muito alto que fez meus ouvidos doerem, rodei na cama até alcançar meu celular em cima da mesinha da cabeceira não precisava olhar para saber quem estava me ligando, às vezes minha mãe esquecia que havia uma hora de diferença entre o Brasil e o Canadá se agora eram cinco horas da manhã aqui no Brasil tinha acabado de dar seis horas.

Me mudei a seis anos por causa da faculdade que era uma das melhores na área de medicina também para ficar o mais longe possível do meu tio Marcelo, só de pensar nele fico em choque…

Marcelo é alto, magro, loiro e muito musculoso, lembro daquele dia como se fosse hoje, era uma sexta —feira como outra qualquer, meus pais tinham saído como de costume, tinha quinze anos eles me deixaram sozinha com ele, estava tudo indo bem, fizemos pipoca e colocamos meu desenho preferido até Marcelo começar a perguntar sobre namoro, se eu já tinha tido minha primeira relação sexual e se eu gostaria de ter, respondi que não e tentei subir para o meu quarto pois aquela conversa estava estranha demais, mas ele me impediu me puxando para cima dele tentei evitar os beijos daquele ser tão nojento, cada vez que evitava mais ele ficava agressivo, o medo já tinha tomado conta de mim, não sabia o que fazer além de chorar e implorar aos céus ajuda

— O pior erro dos seus pais foi te deixar aqui sozinha comigo

Falou me jogando no chão subindo em cima de mim, ele tentava tirar minha roupas a todo custo, juro que tentei me soltar, fiz de tudo o que podia até mesmo gritar

— Escuta aqui sua vadia, não se faz de difícil porque isso só vai me deixar ainda mais irritado, sei que você quer então coopere comigo e se gritar de novo não respondo por mim!

Disse me dando vários tapas no meu rosto, Marcelo tentava o tempo todo tirar minha roupa até conseguir rasgar minha blusa, já não conseguia evitar as lágrimas que caiam e se misturava com o sangue que havia na minha boca, ele mordeu meu ombro enquanto tentava tirar minha calça, tudo o que eu queria era que aquela dor horrível causada pela mordida, os tapas e puxões de cabelo sumissem logo, só queria morrer por alguns minutos tempo suficiente para ele sumir…

Ouvimos a campainha tocar insistentemente obrigando Marcelo me soltar corri até a porta porém ele me alcançou e me empurrou contra a parede

— Isso não acabou aqui, se contar para alguém o que aconteceu juro que acabo com seus pais primeiro e logo em seguida com você.

Me ameaçou antes de me deixar ir ver quem era, limpei as lágrimas junto com o sangue que descia pela minha boca, peguei minha blusa de frio colocando para evitar que as marcas das mordidas e dos arranhões aparecesse, abrir a porta vendo Edward o meu melhor amigo parado ali, me olhando de cima a baixo, demorando mais no canto esquerdo da minha boca onde Marcelo tinha batido algumas vezes, olhei para suas mãos tentando evitar seus olhos doces e preocupado

— Você esqueceu seu caderno na escola… Está tudo bem com você?

Perguntou tocando no meu rosto, não consegui dizer nada, tudo o que consegui fazer foi abraçar ele e chorar, ainda estava sentindo medo, meu coração queria sair pela boca, não estava conseguindo enxergar nada, tudo estava como um borrão

— Estou aqui, não sei o que aconteceu mas sempre vou estar aqui para te proteger e cuidar de você, Helos sempre irei ficar do seu lado!

Era a única coisa que Edward dizia enquanto fazia carinho nos meus cabelos.

Ele só me soltou quando me acalmei devolvendo meu caderno já estava se despedindo mas não queria ficar sozinha de novo com aquele ser nojento, pedir para ele entrar e assistir um filme comigo.

Edward vendo meu estado aceitou sem pensar duas vezes, quando estávamos sentando no sofá pude ver Marcelo no reflexo do espelho fazendo sinal de morte caso abrisse minha boca, por instinto abracei ainda mais forte o Edward, mesmo sem saber o motivo pelo qual o abracei ele me abraçou de volta e a partir daquele dia nunca mais fiquei sozinha com meu tio, sempre que os meus pais saiam chamava Edward para ficar comigo ou ia para casa dele.

Quando vim morar no Canadá não sabia que tinha desenvolvido depressão por causa daquele dia, descobrir pela insistência da minha melhor amiga Sophia por ela achar que não estava bem e me obrigou ir ao psicólogo senão iria contar os bons motivos pelos quais acreditava naquilo aos meus pais, descobri que me encontrava no primeiro estágio da depressão então tinha que tomar antidepressivos e fazer terapia para me ajudar com a depressão.

Conversei com minha mãe até dar seis horas da manhã, desliguei o celular indo tomar banho para poder ir a faculdade, estava fazendo dezenove graus celsius, não estava nem frio e nem calor… Poderia apostar que muitas pessoas estariam usando roupas de calor, não aparecia muito sol por aqui então quando aparecia aproveitamos ao máximo, eu queria poder usar essas roupas feitas para o calor, porém precisava esconder as cicatrizes dos meus pulsos.

Fui até o meu guarda —roupa para escolher qual roupa iria usar o dia inteiro na rua, peguei uma blusa de mangas compridas azul, uma calça jeans preta, um colar de coração prateado, um par de argolas, passei um batom vinho e uma máscara de cílios da mesma cor, deixei o cabelo solto, peguei minha jaqueta preferida preta e coloquei na minha mochila da faculdade, saí de casa às seis e meia da manhã, peguei meu ônibus com direção ao centro onde fazia minha faculdade, cheguei lá seis e quarenta da manhã mais cedo do que de costume, estava na recepção quando percebi um homem que nunca havia visto antes, ele era alto, loiro e magro seus olhos verde combinava muito com aquele sorriso encantador nos seus lábios, aquele homem começou a caminhar em minha direção por algum motivo senti o nervosismo tomar conta de mim

— Bom dia, se importa em me dizer qual é a sala da professora Elisa?

Perguntou amigavelmente, aquele homem tinha uma voz suave tive que me concentrar ainda mais para poder entender o que ele estava falando, também iria para aquela sala, surgiu um sorriso amigável nos meus lábios antes de responder

— Eu te acompanho, vamos ser colegas

Expliquei, aquele homem do qual ainda não sabia o nome abriu outro sorriso, aquele sorriso sim era de arrancar suspiros

— É muito bom conhecer alguém, me chamo Harry Gabriel e a senhorita como se chama?

Perguntou ainda com aquele sorriso em seus lábios

— Heloa Sofia

Respondi no mesmo tom

— Quando começa a aula?

Perguntou olhando no seu relógio

— As sete horas

Respondi recebendo outro sorriso dele

— Temos dez minutos para conversar… Se a senhorita quiser…

Só balancei a cabeça que sim

— Nasceu aqui em Toronto?

Perguntou me oferecendo o braço para podermos andar até a sala de aula

— Não, sou brasileira, e você?

Tinha quase certeza de que ele era brasileiro pelo o sotaque e o jeito caloroso

— Sou brasileiro também, em que estado nasceu?

Perguntou em português curioso

— Rio de janeiro, você é paulista, certo?

Essa era a segunda coisa que tinha certeza, os paulista tinham um sotaque único igual a todo os outros estado do país

— Como sabia?

Harry perguntou surpreso

— Sabe que cada estado do país tem um sotaque diferente, vamos antes de nos atrasar

Falei olhando para seu braço no qual tinha o relógio, hoje tinha aula da professora Elisa era uma das professoras mais exigentes da faculdade

— Bom dia Alunos, hoje vamos aprender os sintomas de algumas doenças, vejo que temos um aluno novo, seja bem —vindo senhor?

Professora Elisa perguntou olhando para Harry que se levantou olhando ao redor

— Harry, é um prazer te conhecer

Respondeu timidamente.

A aula passou rapidamente, já estava pegando meus materiais e saindo quando senti alguém segurar o meu braço, olhei para trás vendo o Harry para minha surpresa, odiava quando me puxavam ou segurava daquele jeito porque me lembrava daquele dia horrível

— Não vai se despedir de mim?

Perguntou gentil

— Tchau

Murmurei contra a minha vontade

— É assim que se despede

Sussurrou dando um beijo na minha bochecha, não falei nada só sair da sala antes que chegasse tarde no meu trabalho, trabalho como garçonete em um tipico restaurante mexicano, chegando lá coloquei meu uniforme indo atender as mesas, quando deu exatamente cinco horas da tarde um homem alto, moreno, olhos azul, por algum motivo aquele rosto era estranhamente familiar…

— Boa tarde, vou querer…

Ele parou de falar ao ver meu rosto

— Heloa, que bom te ver

Fiquei surpresa por ele saber o meu nome mas por algum motivo não me lembrava dele mesmo parecendo estranhamente familiar, ele também percebeu que não o reconhecia

— Sou eu, Edward

Não podia acreditar que era meu único e melhor amigo, senti minhas bochechas queimarem de vergonha como podia esquecer dele?

— Olá, nossa nem te reconhecer…Seu rosto está diferente

Seu rosto estava muito diferente do que me lembrava, talvez fosse porque não tinha uma boa memória…

Ele se levantou, me abraçando forte, sabe quando você consegue sentir o coração de tão apertado que o abraço está? Era muito bom…

— Não esperava te ver aqui, tenho uma reunião muito importante e dependendo do resultado, posso vir morar aqui

Edward falou animadamente ainda me abraçando forte, estava feliz por saber disso, sentia muita saudades dele

— Fico feliz em saber disso, quer ir na minha casa colocar o papo em dia ?

Perguntei dando a ele chance de negar, Edward se afastou alguns centímetros de distância encarando meus olhos, ver aqueles olhos dos quais sentia tanta falta me fazia muito bem

— Aceito, tenho um assunto muito importante para falar com você… Na verdade quero saber o motivo pelo qual escondeu algo de mim, que horas acaba seu turno?

falou fazendo carinho no meu rosto, fechei meus olhos para apreciar ainda mais o toque suave e gentil dele

— As seis horas da tarde

Respondi ainda com os olhos fechados, amava tanto aquele toque que sempre me acalmava e sempre me fez tão bem…

— Posso te esperar?

Perguntou

— Pode, estou curiosa para saber do que está falando.

Fui atender às outras mesas até dar meu horário, saímos e fomos para minha casa.

Minha casa é grande por causa das visitas, tinha um banheiro, três quartos, uma cozinha e uma sala de estar.

Edward parecia não saber como começar o assunto, sentamos no sofá, me sentia tão impaciente para saber do que ele queria falar

— Você queria saber o que ?

Perguntei já que ele parecia não saber como começar o assunto

— Se lembra daquele dia em que fui devolver seu caderno? Você estava chorando muito e assustada…. Por que não me contou o que aconteceu naquele dia? Por que escondeu que seu tio tentou abusar de você? Por que não contou para seus pais?

Senti meu mundo desabar, o pânico tomou conta do meu corpo, como ele descobriu aquilo? Quem mais sabia disso?

Não conseguia dizer nada, tudo estava rodando, senti os braços do Edward me balançarem delicadamente tentando me trazer de volta, aquele maltido dia voltou com tudo na minha cabeça, senti as lágrimas rolarem por meu rosto

— Como sabe disso?

Perguntei entre o choro, estava evitando olhar em seus olhos, sentia muito nojo de mim para conseguir olhar aqueles olhos tão doces

— Seu tio me contou, mas acredito que não quer saber como ele me contou…

Falou com receio, não queria saber, porém precisava saber porque ele contaria para alguém depois de me ameaçar durante nove anos

— Eu quero saber!

Sussurrei sentindo um nó se forma em minha garganta

— Achei o Marcelo bebado na rua, me ofereci para levá —lo até a casa dos seus pais… Ele não parava de me culpar por não conseguir, perguntei do que estava falando e a sua resposta foi ”A culpa é sua por não ter conseguido me aproveitar da vadia da Heloa!” Fiquei alguns segundos tentando entender do que Marcelo estava falando, então aquele dia veio tão claro na minha memória… Você tão assustada, chorando muito, seu rosto com algumas marcas vermelhas, foi a partir daquele dia você mudou tanto… Seu tio ainda estava me culpando então dei um soco nele e me afastei para não matá —lo

Não conseguia dizer nada, senti ele me olhar preocupado pois não falei nada ou me mexi só estava ali parada ouvindo tudo e com as lembranças rodando meus pensamentos

— Por que ficou calada quando te perguntei o que havia acontecido? Por que guardou tudo isso só para você?

Edward me perguntou triste, essa pergunta me fez explodir

— Por que? Além dele ter me ameaçado? Além do nojo que sinto de mim mesma e dessa história? O que mais poderia fazer?

Falei entre gritos e choro, Edward só ficou me olhando deixando colocar tudo o que sentia para fora, quando terminei ele me abraçou muito forte tentando me deixar parada no lugar

— Isso não é culpa sua Heloa! A culpa é toda do seu tio, é ele quem não presta, você era só uma menina, não tem que sentir nojo de si mesma, tem que sentir nojo do seu tio, ele é o único culpado disso tudo, você é só uma vítima nessa história toda e das maldades dele…

Seu tom de voz era calmo porém percebi que Edward estava se esforçando muito para deixá —la assim, ele levantou o meu rosto para olhar dentro dos seus olhos e neles vi amor, compaixão e carinho, como ele poderia me olhar daquele jeito depois de saber disso tudo?

— Não sente nojo de mim? Não acha que tudo isso é culpa minha?

Perguntei deixando claro como aquilo me pegou de surpresa pois na minha cabeça aquilo tudo era só minha culpa, Edward me olhou confuso

—Por que sentiria isso? Por que teria nojo de você ou até mesmo te culparia por isso?

Questionou confuso

— Não sei Edward… Realmente acho que é minha culpa…

Falei triste vendo ele me olhar com compaixão e tristeza

— Heloa não é culpa sua, o único culpado é ele! Seus pais nunca perceberam nada de estranho? Sempre achei estranho o jeito que ele te olhava, mas pensava que era coisa da minha cabeça, me desculpe por não ter percebido o que estava acontecendo…. Se eu tivesse prestado mais atenção não teria que passar por isso sozinha

Como ele poderia cogitar que a culpa era dele?

— Edward, não pode se culpar por isso, nem os meus pais perceberam que tinha algo de errado… Só te peço para não contar nada para eles.

Pedi com receio sabendo como ele iria reagir, Edward me encarou incrédulo e confuso tentando lidar com meu pedido

— Por que não? Seus pais precisam saber que convivem com um monstro, eles precisam saber o que aquele estupido tentou fazer.

Ele falou tentando esconder a raiva e frustração, como iria explicar os vários motivos pelos quais não podiam saber, minha mãe nunca acreditaria em mim e o meu pai iria sentir uma culpa imensurável

— Sabe como são os meus pais, não quero chatear eles com coisas do passado, me promete que não vai contar para eles?

Perguntei sentindo a histeria tomar conta do meu corpo, ele não falou nada apenas suspirou voltando a me abraçar ficamos alguns minutos assim até Edward se afastar e me olhar procurando qualquer resquícios de esteira

— Vai tomar banho, eu faço o jantar.

Só concordei indo logo para o banheiro, perdi as contas de quanto minutos ou melhor horas que estava ali embaixo do chuveiro deixando a água cair por todo meu corpo, as lágrimas se misturavam com a água quente do chuveiro.

por que me sentia tão culpada? Por que sentia tanto nojo de mim? Por que não conseguia acreditar nas palavras do Edward?

Tudo dentro de mim estava uma bagunça… Não sei em que momento peguei a lamina e cortei primeiro meu pulso esquerdo e logo em seguida o direito, quando vi o sangue cair no chão, ouvir Edward me chamar preocupado, como não respondi nada, ele ficou chamando mais alguns segundos até arrombar a porta do banheiro, a última coisa que vi foi o

rosto preocupado antes de desmaiar.