O playboy da zona sul

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Summary

Enricco e Maria pertenciam a mundos diferentes, mas uma amizade poderia surgir ali. No entanto a intimidade mudaria os rumos desse dois "amigos". Enricco finalmente admitiria o que sente por ela? E Maria? Ela vai ceder aos encantos do playboy da zona Sul?

Status
Ongoing
Chapters
6
Rating
n/a
Age Rating
18+

Um

Maria

12 anos antes


Mamãe sempre fez marcação cerrada - os estudos são mais importantes, ela dizia - e assim eu fui crescendo, sem ter muita chance de fazer amigos.


Brincar na calçada? Nã-nã-ni, nã-não!

Dormir na casa de uma amiga? Não.

Ir ao baile sem ela me acompanhando? Jamais!


Estudar é mais importante!


Eu era filha única da Dona Fátima Silva dos Santos, uma mulher que acordava de madrugada pra pegar o ônibus e chegar na hora certa na casa dos patrões, mamãe fazia serviços domésticos - era diarista - engravidou de mim na adolescência, teve que abandonar os estudos para poder me criar. Meu pai? Diz ela, que morreu num confronto entre gangues.


E se tem uma coisa de que mamãe tem medo, é que eu cometa os mesmos erros que ela - estudar é mais importante - quando eu cheguei aos 18 anos, sem filhos e ingressando numa universidade federal, eu pude notar o quanto ela estava orgulhosa e como era significativo lutar por esse diploma.


As poucas vezes que eu estive em festas, ela me acompanhou, constantemente me alertando sobre não aceitar bebida de estranhos, ficar de olho no meu copo - alguém poderia me dar um boa noite, Cinderela. Cinderela eu? Risos - não aceitar carona, ou cair na lábia de algum carinha que eu estava afim.


Era uma eterna vigilância, sobre como me comportar, me vestir e que durante sua ausência, eu deveria trancar tudo.


Nada de visitas!


Cuidado.

Atenção.

Seja cautelosa.


♡~▪︎~♡


"- Homens não são confiáveis, eles vão fazer de tudo para te levar pra cama, não importa o quanto eles digam que não precisa usar camisinha, use! E mesmo que digam que não vão fazer nada que você não queira, não acredite! O rapaz que fizer de tudo para ficar a sós com você, não vai perder a chance de trepar contigo ou de ganhar um boquete.


- Nooossa! A senhora falando desse jeito, me faz pensar que eu deveria ser lésbica. - brinco.


- Não seria uma má ideia.


- Mãããe! - levo as mão ao rosto envergonhada.


- Eu sei que você gosta de meninos - ela estala a língua - mas infelizmente eu não posso te poupar da dura realidade, tudo é um pouco mais difícil para nós, você é pobre e mesmo que seja mais clarinha do que eu, ainda sim é uma mulher preta e a gente é sempre tida como fogosa, o tipo de mulher que abre as pernas com facilidade, por isso eu te alerto que só abra as suas pernas quando se sentir segura e não caia na conversa bonita desses pilantras, porque eles vão fazer de tudo pra te comer, mas na hora de te assumir, vão dá preferência a menina mais alva.


- Pra transar nem é preciso assumir um compromisso - ela me olha de cara feia - a senhora sabe que alguém pode me pegar a força também. - concluo.


Ela dá um suspiro pesado.


- Você acha que todos os dias que eu saio de casa e te deixo sozinha, eu não peço proteção para ti? Eu fico de coração na mão, por isso te digo para trancar tudo e manter-se em casa, o fato de você ser uma menina comportada não vai te livrar do perigo, mesmo se você fosse lésbica, tu ainda correria perigo, os homens são maus, querida.


- Com o papai foi assim? - questiono.


- Aquele traste? Doador de gala - ela faz uma cara de nojo - Ele não assumia ninguém, acho que foi porque não teve tempo, ele só tinha 19 anos quando morreu.


- Ele tinha família?


- Eu não faço ideia, quando a gente se conheceu ele já era do crime e dizia que tinha sido criado na rua ou na febem, desde que se entendia por gente.


- Como vocês se conh...?


- Eu era burra demais, era novinha, não ligava muito para estudar, eu achava que andar com ele era o máximo, me sentia protegida, se ele um dia mandasse em tudo, eu podia ter vida boa, porque rola muito dinheiro nesse 'mundo'.


- E o que aconteceu?


- Ele me deu uma surra quando descobriu que eu tava grávida e me acusou de dar para outros - eu tento engolir seco, mas um bolo se forma na minha garganta - às vezes eu nem acredito como fui besta, porque se eu tivesse ouvido a minha mãe, eu jamais teria me envolvido com ele.


- Eu... - minha voz treme.


- Desculpe, por contar, mas eu não queria esconder isso pra sempre, agora que está mais crescida, precisa saber como a vida é e como fazer escolhas ruins podem nos prejudicar, eu amo você e não posso permitir que cresça acreditando em contos de fada, tudo é muito difícil pra gente, você vai ter que lutar o dobro ou triplo pra conseguir o seu espaço.


- Mas a gente vai conseguir - seguro a mão dela - nós ainda vamos sair daqui, nós vamos ter uma casinha pra chamar de nossa.


- Fé em Deus, minha filha! Você conseguindo um bom emprego, nós vamos juntar os nossos salários e finalmente ter uma casa própria.


Ela me abraça. Mamãe tem razão, "meus estudos em primeiro lugar."


♡~▪︎~♡

Interessante pensar que quando ingressei numa faculdade, imaginei que teria mais chances de conhecer pessoas diferentes e ser convidada para sair.


Doce ilusão.


Ao menos no chat dos alunos veteranos, eu podia dialogar no bate-papo com a galera da minha idade. Era muito difícil fazer amigos cara a cara, meu visual não ajuda, eu nunca sei o que dizer ou como me comportar, acabo gaguejando, os alunos da minha sala já me chamam de esquisita.


O primeiro semestre de Bioquímica foi o mais difícil, nunca me senti tão excluída, a universidade é legal, eu gosto dos professores, de ficar na biblioteca, de comer meu lanche na ala leste do campus, lá é mais tranquilo, os acadêmicos elitistas costumam se encontrar nos barzinhos que ficam em torno do prédio de humanas.


Meu celular vibra dentro da bolsa.


VETERANOS CHAT


RICCO.KOS: hj é sexta-feira dia de bebemorar!!! ;DDD


RODRIGO_DESIGN: cara tu vai se aposentar como aluno da federal.


bêfuturoadv: falou em Cátia? Cátia catiaça? Quero!


Prikoschnik: Ricco pelamor! Vai estudar!


RICCO.KOS: =p vaza Priscila! Isso é papo de adulto!


Kimi: falou o mais velho do grupo -_-


bêfuturoadv: :O


Prikoschnik: >-<


yasmin19: ñ liga p ela, ça daí é sem nocão.


Eu respondo. O chat dos veteranos é utilizado por um pequeno grupo social da universidade - os riquinhos - uma vez ao utilizar um computador da sala de informática, Rodrigo deixou o bate-papo aberto na internet, eu criei uma conta de email falsa e um nickname diferente do meu nome - Kimi, a estudante de 'Química' - e me convidei para a sala virtual.


Rodrigo havia convidado outros estudantes naquele mesmo dia e sequer notou que a minha presença ali, havia sido forjada, afinal boa parte do tempo fora de casa, o rapaz se mantém chapado, fumando um cigarrinho suspeito de cheiro forte junto de outros alunos.


Se fumo um desses, é capaz de eu ir presa - riso irônico - e ainda perder uma tira de couro das minhas costas assim que a minha mãe ficasse sabendo.


Kimi: bom dia yes! Era você no banco do carona do jipe do senhor Kos? Ah não! Acho que me enganei >.< a garota tinha cabelos loiros =/


Yasmin estava mais para Yesmim, garota fútil, baba ovo do Enricco, mais que baba ovo, ela chupava as bolas e o pinto dele, sempre que ele deixava. Mas para o azar dela, a pobre coitada não era a única que gostava de fazer saliência com o príncipe herdeiro no estacionamento do campus.


yasmin19 está digitando...


Ela digitou, no entanto nenhum mensagem chegou.


RICCO.KOS: Kimizinha se eu pudesse bania vc do grupo.


Prikoschnik: uahahahuauah + vc não pode, como adm deste chat eu digo q Kimi continua.


Kimi: Se é para o bem de todos e felicidade geral da nação, digo ao povo que fico! =D


RODRIGO_DESIGN: êêêêê!!!


bêfuturoadv: rsrsrs...


yasmin19: ='(


Prikoschnik: \ (•◡•) /


RICCO.KOS: (︺︹︺)


O sinal toca, eu desligo a tela do meu celular e coloco minha mochila nas costas, ando devagar pelos corredores, é divertido poder importunar esse povinho metido a besta e ficar de boa no sôssego do meu anonimato.


Olho rapidamente para o visor do meu celular e checo as horas, antes de colocá-lo de volta no bolso do meu moletom, porém um dos alunos esbarra em mim e eu acabo derrubando o aparelho no chão, na movimentação de pernas alguém chuta para longe.


- Meu Deus!


Quando finalmente para de ser arrastado, vejo que está seguro, embaixo da sola de um tênis muito caro.


- Opa! Isso é seu? - ele pega meu celular velho e agora arranhado, balançando na sua mão.


- S-s-sim. - merda! Que mania de gaguejar.


Enricco sorri e me entrega o meu celular, o toque de seus dedos nos meus foi rápido, tão rápido que eu sequer senti a textura da sua pele.


- Onde conseguiu essa relíquia?


- Obrigada.


Eu não respondo o seu questionamento, apenas agradeço. Fora da tela, sou uma pessoa bem medrosa, jamais ousaria lhe dar uma resposta sarcástica ou insultá-lo.


- E aí? Quem você acha que é? - ouço uma voz masculina quando dou as costas no rumo da minha sala.


- Não faço ideia, mas eu vou descobrir quem é essa tal de Kimi, nem que eu tenha que revirar essa universidade de cabeça para baixo. - Koschnik responde.


Eu engulo com dificuldade, aperto as alças da minha mochila com força enquanto tomo distância deles.


Está na hora de sumir.