Capitulo 1
Era o meu momento de respirar. A pressão de estar no palácio, todos os dias, me sufocava. Por alguns minutos, eu conseguia esquecer. Meus pés chutavam as folhas secas com a chegada do outono — mesmo antes do frio, as árvores já se despediam de sua folhagem.
Foi então que a vi pela primeira vez. Parei, surpreso. Há anos eu vinha ao lago, e nunca tinha visto ninguém ali. Ninguém caminhava os dez minutos que o separavam do palácio — era esforço demais para a maioria, que preferia o conforto da lareira.
Ela estava de costas. A pele clara, envolta por um vestido azul delicado. Os cabelos castanhos brilhavam sob a luz do sol. Era como se, por um momento, a vista do pôr do sol tivesse ganhado vida.
Pensei em voltar e não incomodar. Eu detestaria ser interrompido em um momento assim. Mas, ao dar um passo para trás, pisei em um galho seco. O estalo foi alto o suficiente para quebrar o silêncio. Ela se virou.
Seus olhos eram azuis como o vestido, profundos e serenos. A pele clara parecia ainda mais luminosa sob os últimos raios do sol, e seus lábios rosados e cheios se entreabriram, como se estivesse prestes a dizer algo.
Por um instante, o tempo pareceu parar. O lago, o pôr do sol, as folhas caídas — tudo desapareceu. Só havia ela.
Ela arregalou os olhos, surpresa, olhando ao redor — talvez assustada com a aparição repentina de um homem.
— Desculpe, não queria assustá-la — afirmei, com os braços levemente estendidos.
Ela levou a mão ao coração e soltou um suspiro.
— Uau, quase pulei para trás — disse com um sorriso. — Não sabia que mais pessoas vinham ao lago.
Fiquei curioso para saber há quanto tempo ela vinha ali. Afinal, eu estivera viajando na última semana, mas antes disso, vinha todos os dias.
— Realmente, não é muito frequentado.
Ela assentiu.
— Com toda certeza. Ele é mais próximo do castelo do que dos vilarejos. Nunca que a realeza iria sujar os pés desse lado — disse ainda sorrindo, revelando duas covinhas coradas.
Mordi o lábio, concordando. Claro, eu sou o rei... então sou da realeza. Mas concordei plenamente.
Ela voltou o olhar para o lago. Aproximei-me, ficando ao seu lado.
— Realmente... mas não sabem o que estão perdendo.
Ela continuava olhando o lago, com a expressão serena e os olhos azuis como o mar. Apontou para uma família de patinhos que mergulhava à frente.
— Eles que são felizes — disse com a voz triste, voltando o olhar para mim — sem preocupações com o dia de amanhã.
Seus olhos estavam preocupados. Ela desviou o olhar novamente.
— Você não parece ter muitas preocupações — brinquei.
Ela deu de ombros.
— Você não faz ideia! — suspirou. — Mas não vim aqui para desperdiçar essa vista com minhas chateações — disse, sorrindo.
O silêncio pairou por um momento, mas aquilo não nos incomodava — pelo contrário. Era confortável. Ela piscou, me olhando.
— Poxa! Nem me apresentei — disse, estendendo a mão.
Arqueei as sobrancelhas. Nunca fui tratado de forma tão informal. Desde criança, as pessoas se curvavam ao me ver chegar. Toquei sua mão gelada, tão delicada. Ela apertou firme e, antes que eu pudesse levá-la aos lábios, ela a sacudiu para cima e para baixo.
Ela realmente não pertencia a nenhuma casta.
— Abigail. Mas prefiro que me chamem de Abbie.
Ela puxou a mão e eu me curvei gentilmente.
— Prazer, senhorita Abbie. Pode me chamar de Cristian.
Ela concordou com um sorriso delicado.
— Agora me dá licença, preciso correr. Minha avó deve estar arrancando os cabelos atrás de mim!
Antes que eu pudesse responder, ela acenou e saiu correndo em direção à mata.
Fiquei parado por alguns segundos, olhando para o ponto onde ela desapareceu entre as árvores. Abbie. O nome ecoava na minha mente como uma melodia inesperada.
Havia algo nela... algo que quebrava todas as formalidades que me cercaram a vida inteira. Ninguém me tratava assim — com leveza, com naturalidade. Como se eu fosse apenas mais um homem à beira do lago, e não o rei.
Seu sorriso ainda dançava na minha memória, junto com aquelas covinhas coradas e os olhos azuis que pareciam guardar um mundo inteiro.
Era estranho. Em poucos minutos, ela havia me desarmado. E eu, que vim ao lago para fugir do peso da coroa, agora carregava um novo pensamento: quando a veria de novo?
ABBIE
— Onde estava?! — gritou minha avó Esme, me puxando pelo braço com força surpreendente para alguém da idade dela. — Já te falei que temos que estar disponíveis vinte e quatro horas por dia!
Ela pegou o pano que estava pendurado no ombro e começou a me limpar como se eu fosse uma panela suja. Revirei os olhos.
O cheiro de tempero ainda grudava nela, como se tivesse saído direto da cozinha para me caçar.
— Avó, eu só fui tomar um ar... — tentei justificar, mas ela já estava ocupada esfregando meu rosto com o pano.
— Ar? Ar é o que você vai tomar quando estiver correndo atrás de mim na cozinha! — resmungou, sem parar de me limpar.
Suspirei. Era impossível discutir com Esme. Ela era pequena, mas tinha a força de um exército e a teimosia de um rei... o que, ironicamente, eu sabia bem como era.
Abbie havia chegado ao castelo há poucos dias, com os olhos ainda vermelhos do luto. Seu pai, um homem simples e trabalhador, havia dedicado a vida para criar ela e a irmã mais nova em uma fazenda ao norte. Com a morte dele, não restava mais ninguém — apenas Esme, a avó materna, cozinheira-chefe do palácio há décadas.
Desde que chegou, Abbie praticamente não saía da cozinha. Ajudava a avó com tudo: picava legumes, lavava panelas, organizava os ingredientes. Era sua forma de manter a mente ocupada, de não pensar demais.
Mas, ao contrário da irmã mais nova — uma sonhadora que adorava explorar os corredores do castelo e se encantava com cada detalhe dourado — Abbie detestava estar ali. O castelo, com toda sua pompa e regras, era o oposto da liberdade que conhecia na fazenda.
Esme, por sua vez, era dura, prática e cheia de regras. Mas por trás da rigidez, havia um amor silencioso. Ela sabia que a neta estava ferida, e por isso a mantinha ocupada — não por frieza, mas por cuidado. Era o jeito dela de proteger.
A cozinha já estava quase vazia quando Abbie se sentou em um dos bancos de madeira, esfregando as mãos cansadas. A porta rangeu suavemente e sua irmã entrou, os cabelos curtos e cacheados balançando com cada passo animado.
— Você sumiu de novo, né? — disse com um sorriso travesso, se jogando ao lado dela.
Abbie suspirou, mas não respondeu de imediato. A irmã a observava com olhos curiosos, sempre cheios de sonhos e perguntas.
— Fui até o lago — disse por fim, olhando para as mãos. — Só queria... respirar um pouco.
— Eu gosto daqui — comentou a irmã, olhando ao redor com brilho nos olhos. — Tem cheiro de pão e histórias.
Abbie sorriu de leve. Era impossível não se contagiar com a energia da irmã.
— Você sempre vê o lado bom das coisas.
— Alguém tem que ver, né? — respondeu, encostando a cabeça no ombro da irmã. — E você... você parece diferente hoje.
Abbie hesitou, mas depois deixou escapar um sorriso tímido.
— Conheci alguém.
A irmã levantou a cabeça num pulo, os olhos arregalados.
— Alguém?! Quem?! Como?! Conta tudo!
Abbie riu, pela primeira vez em dias.
— Calma, sonhadora. Talvez amanhã eu conte.