A Batalha pela Coroa

All Rights Reserved ©

Summary

Em um mundo onde a magia é como o ar, e ocupa cada brecha e espaço, há um reino onde tocá-la ou mesmo tê-la é um crime punível com a morte. Tudo graças aos novos monarcas, os Ksares. Anjos são superiores. Todas as outras criaturas são impuras e merecem a aniquilação. Mas o que acontece quando uma antiga princesa, que deveria estar morta, entra em uma competição até a morte para desposar com o filho mais novo desses monarcas fanáticos pela supremacia de raça?

Genre
Fantasy
Author
Michele
Status
Ongoing
Chapters
6
Rating
n/a
Age Rating
18+

O INÍCIO DE TUDO

Eu já estava lá quando eles chegaram. Adormecido no âmago de meu mundo, repousando após criar céus, terras, mares e rios; rechear todos com minhas criaturas, tais quais coexistem com a natureza, com a mana e, acima de tudo, comigo.

As terras eram férteis, ricas em pedras preciosas, minérios e minerais; e os animais eram majestosos, apesar de alguns assustadores. Os rios e mares cheios de peixes e talvez um par ou dois de criaturas que não se deveria nomear jamais. Embora não as temesse - por meu poder ser infinitamente superior -, as respeitava o bastante para saber que não deveriam ser importunadas.

Minha existência naquele plano era primordial. Estava eu ligado a todas as coisas, de certa maneira ao menos. Eu via tudo. Ouvia tudo. Eu era tudo.

E quando estava prestes a criar aqueles que povoariam meu mundo, meus filhos, um rasgo no espaço/tempo surgiu cintilante em meus domínios. Gritei numa dor lancinante, o que assustou até mesmo a mais corajosa de minhas criaturas. Era como uma ferida abrindo-se aos poucos em meu ser, até se tornar uma fenda grande o bastante para ser perigosa.

Tomei minha forma física e me aproximei daquele estranho portal, que oscilava em cores branca, vermelha, dourada, verde, azul e preta. E, para minha completa surpresa, pequeninos seres bípedes, quase sem pelos e que emanavam um curioso poder de outro plano - bastante medíocre, diga-se de passagem -, cruzaram por ela.

Ao fitá-los, todos estampando um choque ao me ver, não demorou para que eu visse o horror de suas existências em suas mentes frágeis. Eles fugiam de uma guerra travada contra seres mortais inferiores, que os odiavam por medo e inveja de seus poderes sobrenaturais. O grupo procurava por uma dimensão em que pudessem se abrigar junto dos seus.

Era uma situação um tanto quanto intrigante, ainda mais julgando por eles próprios. Tratavam-se de um esquadrão de criaturas, tais como uma bela feiticeira de poder gritante, sua aura era magnífica e parecia se ampliar um bocado a mais com a mana de meu mundo; um elfo com habilidades de cura e uma visão impecável; uma fada capaz de levar muitos seres a loucura com suas palavras distorcidas e o dom de manipulação, sem mencionar o vôo veloz e o fato de encolher com facilidade; um anjo cheio de graça e mortal em sua verdadeira forma, com as plumas de suas asas tão afiadas quanto as lâminas de suas espadas; o mutante, que exercia poder sobre os quatro elementos: fogo, água, terra e ar; a sereia, que conseguia pôr quase qualquer criatura sob seu encanto apenas com um olhar ou até mesmo um singelo sussurro com sua voz penetrante era fatal.

Eles tiveram medo de mim e aprontaram-se para lutar comigo, o que achei bastante hipócrita da parte deles, uma vez que estavam fugindo de pessoas exatamente com tal comportamento. No entanto, logo perceberam que era eu o ser supremo daquele mundo e, então, sugeriram uma barganha.

Pediram-me abrigo, imploraram para que os seus pudessem viver em meu plano, oferecendo-me em troca devoção, fé e submissão à minha vontade. Chamaram-me de Deus. E, num momento de soberba, aceitei tal proposta.

E que escolha restara a eles senão aceitar as minhas condições?

Me detive nos limites de minha dimensão, apenas observando aquelas baratinhas trazendo os seus povos através da fenda e algumas espécies a mais, mas havia espaço para elas também desde que sua fé e orações fossem minhas.

Levantaram acampamentos enormes, sem se misturarem muito, cada espécie dominava uma região dos assentamentos, tendo aqueles que vieram primeiro como pilares de suas relações e assuntos com os outros seres. Apesar disso, tudo ocorreu bem, em harmonia até, pelo menos no começo dos tempos.

Contudo, os recursos que haviam trazido consigo se esgotaram e eles desmataram minhas florestas, caçaram meus animais e, em troca, me construíram templos, onde sacerdotes e sacerdotisas pregavam versões equivocadas e até mesmo irreais de minhas vontades e palavras - as quais nunca sequer ouviram e, ainda assim, se diziam tocados por mim e minha essência divina.

Esses eram tolos por brincarem com meu nome!

Tomado pela ira, lancei castigos sobre eles.

Não demorou muito para que os feiticeiros descobrissem que havia um preço a ser pago pelo dom de manejar a mana: eles não mais eram capazes de se reproduzirem entre si, apenas com outras espécies e, com sorte, a prole também nascia com o dom da magia. Apesar de magos e bruxos ainda o fazerem com certa tranquilidade, era raro o objeto capaz de manipular a energia primordial de meu plano. Os elfos ficaram bastante descontentes ao perceberem que não podiam mais conceber entre si, talvez com um nephilim ou morta comum gerassem um fruto mestiço capaz de herdar suas magias e habilidades extraordinárias com as armas e os animais, embora uma cria de outra espécie pudesse ser “tocada” pela energia da natureza élfica, tornando-se assim uma deles, mas era algo muito raro de acontecer. As fadas descobriram logo que se perdessem suas asas, deixavam de ter seus poderes levianos, bem como a capacidade de serem pequenas, tornando-se assim, elfos, de certa forma, e elas apenas se reproduziam entre si. Anões, trolls, ninfas e duendes seguiam a mesma regra de reprodução. Os anjos por sua vez, tornaram-se mortais, apesar de ainda viverem alguns bons séculos e suas asas estarem no lugar, sentiam emoções e eram capazes de se multiplicarem com qualquer espécie, embora a posse de asas não fosse garantida para a cria. Os mutantes não puderam mais controlar os quatro elementos de uma só vez, cada qual recebera um dom e eu ainda acrescentara outros (elementos/dons). E as sereias, bem… elas detinham minha atenção e curiosidade, então apenas lhe dei uma necessidade sufocante de desejarem a água do mar quando estiverem fora dela.

Com as mudanças nada satisfatórias para os seres, veio o ódio deles por mim e aqueles que vieram primeiro foram pressionados a me encontrar para que eu desfizesse tais punições.

O que eles não contavam era que todo aquele acúmulo de ressentimento, raiva e desejo de retaliação, abriria uma nova fenda. Criaturas sombrias e maléficas passaram por ela, vindas de uma dimensão obscura, onde tudo o que existia era o caos. Todo aquele ódio permitiu a passagem de tais criaturas para o meu mundo.

Os dias ficaram cinzentos e aquelas aberrações alimentavam cada vez mais os sentimentos negativos nos corações de meus mais novos protegidos, ao passo em que os estupravam, saqueavam e esfolavam, propagando suas doenças demoníacas incuráveis, como licantropia e vampirismo.

Ainda assim, culparam-me.

Ingratos!

Em uma tentativa de recuperar um pouco da harmonia de meu plano e apaziguar os ânimos, iluminei os Primeiros com a verdade, mostrando a eles os verdadeiros inimigos: Asmodeus Morningstar, um demônio maior, líder daquela horda que os atormentava. E Dracomir Înfricoșător, outro demônio maior, segundo no comando e irmão de arma do outro.

Então, todos os meus protegidos, as minhas baratinhas, desde a implacável feiticeira, que me encantava com sua magia e sabedoria, até a mais pequenina das fadas, uniram-se para lutar contra as forças das trevas.

Foram dias e noites de luta, batalha após batalha, e quando não parecia mais haver uma solução para a praga obscura, os Primeiros tiveram um plano astuto que contava com minha ajuda. Uma vez que a fenda que permitira a passagem daquelas aberrações em meu mundo se fechara após a entrada delas, o esquadrão de Primeiros aprisionaram os inimigos em uma parte de meu plano em que ninguém ousava chegar perto, pois as criaturas inomináveis dormiam naquela região. Tendo camadas e mais camadas de feitiços em uma língua que a feiticeira e eu criamos juntos e apenas nós dois tínhamos o conhecimento das palavras usadas, e um selo que exigia um sacrifício de sangue puro e livre de qualquer mal ou pecado em sua fechadura, o reino prisão, que outrora chamaram de Sodoma, continha as trevas. Uma chave de ouro eu forjei com minhas próprias mãos para aquela fechadura, embora ela jamais pudesse ser usada. E, naquele instante, os Primeiros decidiram dividir o fardo entre si, cada qual carregando um fragmento da chave.

Depois da Primeira Guerra contra as forças sombrias, cada um daqueles Primeiros tornou-se líder de suas respectivas espécies, incrustando os fragmentos em suas coroas.

Mas fora a feiticeira, a qual recebeu o título de Rainha da Magia e Feiticeira Branca, que carregou o fardo maior e mais pesado, pois eu a escolhi como minha e dei a ela a centelha da vida, uma parte de mim.

E, com o tempo, aquelas baratinhas ingratas e revoltas, construíram seus reinos gigantescos. Arcádia e Encantria eram ilhas pertencentes aos anjos e nephilins, que haviam se dividido em dois grupos. Triunfo fora habitado por elfos, fadas e todas as outras criaturas ligadas à natureza. Zafera pertencia aos mutantes. Oceanus aos seres do mar como sereias e tritões. E o Reino Dourado ficou com os feiticeiros, magos e bruxos.

A fé de todos nunca havia sido tão forte e com ela, fora eu cultuado e adorado como jamais tinha sido antes. Me fazia mais forte e poderoso com suas orações e oferendas, tanto que meu corpo físico sucumbiu e eu me tornei algo ainda maior, mais absoluto, muito mais divino que qualquer mente pudesse sequer imaginar. Mas, no momento do meu ápice supremo, tive um vislumbre do que estava por vir: o mal retornaria mais forte e mais sábio, com aliados.

Tive eu de escolher um campeão para fazer valer as minhas medidas, uma vez que, por ter me tornado um ser maior, não podia interferir e quanto menos concluir os assuntos com as trevas. Então, escolhi o menino de olhos dourados e coração enorme. Seria ele o ser capaz de viver o bastante para unir os descendentes mais poderosos dos Primeiros para combater o inimigo outra vez.

Uma profecia foi feita e somente quando a jovem mulher com olhos de tempestade conquistasse a coroa dos anjos, o menino responderia ao meu chamado, dando início a sua missão.

E com o correr das eras, a Primeira Guerra, bem como a incursão daquele esquadrão para essa dimensão, virou história. A história se tornou incontáveis lendas. E as lendas foram esquecidas, contornadas com fábulas e contos para crianças dormirem.

Eu continuo aqui.

Observando e aguardando o momento em que a minha linhagem liderará os exércitos de luz contra as trevas, que espreitam no horizonte.