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Você Deu ao Natal uma fama Ruim

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Summary

O Natal deveria ser sobre família, perdão e boas intenções. Mas quando uma mulher entra em uma casa onde a hipocrisia veste suéteres bregas e a crueldade se disfarça de tradição, ela decide que não vai sorrir, agradecer ou engolir nada. O que começa como uma reunião familiar cheia de comentários passivo-agressivos rapidamente se transforma em um espetáculo de humor sombrio, vingança emocional e caos cuidadosamente calculado. Porque, às vezes, o problema do Natal é levar a família a sério demais.

Genre
Humor
Author
LexSilvas
Status
Complete
Chapters
5
Rating
n/a
Age Rating
18+

Parte primeira: Vingança em clima de natal

29/12/25


Eu amo o Natal. Essa estação em que o frio corta como lâmina e o vento parece rir da nossa pele, lembrando que o mundo pode ser cruel e que pessoas más merecem punição. Por isso eu, Charlotte O’Connor, estou nesse voo de Boston para a Nova Inglaterra. Vou encontrar minha irmã Emily e ajudá-la a se vingar da família podre do namorado dela, que a expulsou para um hotel e ainda pressionou o precioso Ewan Stone a terminar com ela.

Ontem à noite, Emily me ligou chorando. A voz dela tremia como vidro prestes a se quebrar. Implorou para que eu fosse até lá ajudá-la, porque deixou seus documentos na casa dos pais desse energúmeno e precisa recuperá-los antes de desaparecer de volta para Nova York. Ela jurou que não queria mais arrumar brigas desnecessárias por bobagens — disse que estava tentando mudar, que só precisava das suas coisas para poder ir embora.

Mas eu não estou indo para negociar a paz. Estou indo para incendiar o Natal deles. Quem faz minha irmã chorar merece ver as luzes da árvore queimarem junto com suas ilusões.

O avião ainda não decolou. Eu olho pela janela e vejo o reflexo da pista semi coberta de neve, os faróis dos veículos de apoio piscando como vaga-lumes mecânicos. O cheiro de combustível invade o ar misturado ao perfume barato de alguém sentado duas fileiras atrás. Uma senhora se aproxima do meu assento, a pele marcada pelo tempo, os olhos sérios.

— Esse lugar está ocupado? — pergunta ela.

— Está — respondo sem hesitar. — Meu ódio precisa de espaço extra.

Ela arqueia as sobrancelhas, surpresa.

— Você é algum tipo de maluca? — pergunta ela.

— Qual é o seu nome? — devolvo, encarando-a. — Não interessa. Se não quer ir amarrada na frente do avião, então suma daqui.

Ela percebe minha agressividade, recua e se afasta com passos rápidos. Eu sorrio, satisfeita. O som metálico das portas se fechando ecoa pelo corredor, e o avião vibra como um animal prestes a despertar. Vingança. Nada melhor que isso no Natal. Ho ho… morte. Talvez não tanto, mas um incêndio criminoso já seria um bom começo. Ainda bem que eu sempre sei como conseguir gasolina e fósforo.

O voo de Boston até a Nova Inglaterra durou pouco mais de três horas, mas para mim pareceu uma eternidade. O som constante dos motores era como um tambor dentro da cabeça, e cada turbulência me lembrava que eu estava indo direto para a guerra. Quando finalmente aterrissei, o frio me recebe como uma bofetada, o ar gelado entrando pelos pulmões e queimando por dentro.

Não perco tempo. Pego um táxi e vou direto ao hotel onde Emily está. O saguão tem cheiro de café velho e carpete úmido, e as luzes amareladas davam ao lugar um ar de abandono. Subo as escadas com pressa, ignorando o elevador, sentindo o peso da neve ainda grudada no casaco.

Quando abro a porta do quarto, lá está ela. Emily, minha irmãzinha, sentada na beira da cama, abraçada a uma almofada como se fosse a última defesa contra o mundo. O cabelo ruivo preso de qualquer jeito, os olhos vermelhos e inchados, a pele pálida como porcelana rachada. Ela parece menor do que eu lembrava, como se tivesse encolhido dentro da própria dor.

Eu entro sem pedir licença. O cheiro de perfume barato misturado ao ar abafado do quarto me atinge, mas nada disso importava. Emily levanta o olhar e, por um instante, vejo nela a fragilidade de uma criança perdida.

— Eu vim — falo, minha voz firme, quase cortante.

Ela suspira, um som que misturava alívio e vergonha, e se levanta devagar. Quando me abraça, senti o corpo dela tremer contra o meu. Eu percebi que aquilo não era medo, era raiva reprimida. Eu a seguro com força, como se pudesse impedir que o mundo a esmagasse.

Naquele momento, percebi que não estava ali apenas para consolar ou controlar. Eu estava ali para incendiar. Para transformar o Natal deles em cinzas. Emily precisava de mim, e eu não ia decepcioná-la.

Ela me conta tudo, cada detalhe nojento do que aquelas pessoas fizeram com ela. Disseram que ela não passava de “só” uma assistente de edição da New York Mags, como se o trabalho dela fosse menor, como se ela não tivesse valor. Falaram do cabelo vermelho, vivo como fogo, dizendo que a fazia parecer uma bruxa. E no jantar, a humilhação final: colocaram Emily na mesa das crianças, rindo, dizendo que “ela não era da família”. Cada palavra que ela repetia fazia meu sangue ferver mais.

Tudo o que Emily queria era pegar suas coisas e desaparecer dali, mas eu tinha outros planos.

— Eu só preciso pegar as minhas coisas lá e depois vamos embora o mais rápido possível desse lugar horrível — diz ela, chorando, a voz quebrada.

— Não se preocupe, maninha — respondo, firme. — Eu vou lá e pego pra você. Não precisa ver essas pessoas nunca mais.

— Eles vão ser maus com você — diz ela. — Precisa se controlar perto deles.

— Não se preocupa — falo sorrindo, com um brilho nos olhos. — Eu sei cuidar de mim.

Deixo minha mala no hotel e saio em direção ao endereço que ela me deu. Quando cheguei, vi a casa: enorme, imponente, típica de um subúrbio chique. O táxi me deixou na calçada e eu caminhei até a porta da frente. A fachada estava coberta de enfeites natalinos exagerados, luzes piscando em todas as cores, guirlandas penduradas em cada janela. E bem na frente, um boneco grande inflável do Grinch, verde e inflado demais, olhando para mim com aquele sorriso falso. Horroroso.

Mas adivinha só quem veio para acabar com o Natal deles? Um Grinch versão ruiva.

Pego as chaves do bolso do casaco e as encaixo entre os dedos, como se fossem pequenas garras de metal. O vento frio cortava meu rosto, mas eu só pensava na raiva que me guiava. Caminho até o boneco inflável do Grinch que estava plantado na frente da casa, enorme e ridículo, sorrindo como se zombasse de mim.

Sem hesitar, enfio as pontas das chaves contra o plástico verde. O som foi seco, um estalo abafado, e logo o ar começou a escapar com um chiado agudo. O boneco murchava diante de mim, desinflando rápido, perdendo a forma grotesca aos poucos ele ia se tornando apenas um monte de tecido enrugado no gramado. Sorrio. Era como se eu tivesse acabado de arrancar o fôlego da própria decoração natalina deles.

Com o coração acelerado, subo os degraus da entrada. Cada passo ecoa pesado contra a madeira, como se fosse um prelúdio da tempestade que eu trazia comigo. Bato na porta, várias vezes, impaciente, cada batida reverberando pelo interior da casa como um aviso: o Natal deles estava prestes a mudar para sempre.

— Já vai, já vai — grita uma voz feminina antes da porta se abrir.

A mulher que aparece é de meia-idade, com um roupão azul desbotado e cabelo desgrenhado, como se tivesse acabado de sair da cama. O rosto dela carrega uma mistura de sono e irritação, e os olhos me medem de cima a baixo, tentando decifrar quem eu sou.

— Geralmente cantores natalinos vêm em grupos — diz ela, com um sorriso torto. — E não são ruivos.

— Geralmente velhas vadias penteiam o cabelo antes de abrir a porta — respondo sem piscar.

Ela leva a mão ao cabelo, ofendida.

— Quem é você afinal? — pergunta ela.

— Alguém que veio pegar as coisas da minha irmã.

Ela solta uma risada curta, quase um escárnio.

— Ah, então você é irmã da cabelo de fogo — diz ela.

— Essa porra é de família — digo, encarando-a. — Diferente de você e sua ranzinzice crônica que veio da onde da sal falta de rola.

Ela arqueia as sobrancelhas, surpresa com minha rapidez.

— Respostas rápidas. Impressionante — diz ela. — Dê a volta na casa, eu vou te entregar pela porta da cozinha.

Ela tenta fechar a porta na minha cara, mas eu seguro firme e a encaro.

— E qual o problema com essa porta aqui? Tenho certeza de que tem espaço o suficiente pra você passar as coisas por aqui mesmo — digo séria.

Ela me olha com raiva, os olhos estreitos.

— Não quer entrar então? — pergunta ela. — Não quero que os meus vizinhos pensem que eu estou recebendo mendigos agora.

— Pensei que nunca me convidaria.

Quando ela olha para fora, vê o Grinch inflável murchando aos poucos no gramado.

— O que aconteceu com o meu Grinch? — pergunta ela.

— Vai ver ele só cansou de olhar pra essa sua cara feia.

Entro na casa com passos firmes, sem baixar a cabeça. Já percebi que ali, se você demonstra um pingo de fraqueza, eles te devoram vivo. E eu não vim pra ser alimento de lunático.

Na entrada, há um vaso enorme, de porcelana, com desenhos dourados. Ela fecha a porta atrás de mim e aponta para o objeto.

— Eu vou pegar as coisas da sua irmã. Fique aqui e tome cuidado com o vaso. É uma herança de família — diz ela.

Assim que ela se vira, eu me aproximo do vazo e o empurro com o pé. O som é estrondoso, a porcelana se espatifando em mil pedaços pelo chão. Ela se vira assustada, os olhos arregalados.

— Sua maluca! Eu falei pra você tomar cuidado! — grita ela.

— Eu pensei que você tinha dito pra eu empurrar com cuidado — digo, fingindo inocência.

Nesse momento, surge Ewan, alto, com o cabelo penteado demais, vestindo um suéter natalino ridículo. Ao lado dele, aparece um homem mais velho, o pai, com postura rígida e olhar severo.

— O que está acontecendo aqui? — pergunta Ewan.

— Essa doida quebrou o vaso da minha avó — grita a mãe, ajoelhada para catar os cacos.

— Sua mãe ficou maluca — digo, colocando a mão no peito e fingindo choque. — Ela mesma jogou o vaso no chão e agora tenta me acusar. Bem que a Emily me avisou que ela era doente.

O pai franze a testa.

— Isso é verdade, amor? — pergunta o pai pra esposa.

— Claro que não é! — berra a mãe.

— Eu acho que vocês deveriam internar ela numa casa de repouso — digo, abrindo a bolsa. — Acho que tenho um panfleto aqui.

— Mãe, sai de perto do vidro — pede Ewan, enquanto o pai vai ajudá-la. Ele se aproxima de mim. — E aí, como a Emily está?

— Bem. Ela só quer as coisas dela de volta.

— Eu preciso falar com ela. A minha família só estava brincando, não era pra tanto.

Antes que eu responda, duas moças entram na sala. Uma delas é jovem, cabelo curto, olhar debochado, postura firme, quase desafiadora. A outra é mais alta, com cabelo comprido e expressão mais contida, mas igualmente curiosa.

A de cabelo curto me encara e ri.

— Ai meu Deus, as ruivas estão se multiplicando — diz ela.

— Você deve ser a Rachel — digo, indo abraçá-la. — Minha irmã me falou muito bem de você.

Enquanto a abraço, discretamente colo um chiclete no cabelo dela. Ela sente na hora.

— O que você colocou na minha cabeça? — pergunta ela, levando a mão ao cabelo. — Isso é um chiclete?

Ela tenta remover, pede ajuda à outra moça, e eu apenas sorrio, observando as duas se afastarem com raiva e medo.

— Tá legal — diz Ewan, erguendo a voz. — Ninguém chega perto da Charlotte. Eu a conheço bem o suficiente pra saber que ela não vai aceitar nenhuma das merdas de vocês. Então parem de agir como idiotas.

— Ela colocou chiclete no meu cabelo! — grita Rachel.

— Deixa que eu tiro isso com uma tesoura — diz a outra, já puxando a irmã pelo braço.

— Todo mundo pra sala agora — ordena Ewan. — Inclusive você, Charlotte.

— Eu não vou a lugar algum com vocês — respondo. — Só quero pegar as coisas da Emily e sair fora.

Ewan suspira, tentando manter a calma.

— Por favor. Acho que todos nós começamos com o pé esquerdo — diz ele.

Eu sorrio, mostrando os dentes.

— Eu tenho uma faca caso vocês tentem alguma coisa — digo.

— É claro que tem — diz Ewan, me indicando o caminho da sala.

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