Cicatrizes Do Amanhã

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Summary

Em uma cidade onde a violência cresce em silêncio e pessoas desaparecem sem deixar rastros, Ren Aoyama percebe que fingir não ver também é uma escolha e uma perigosa. Cansado de assistir seus amigos serem ameaçados por gangues que espalham terror nas sombras, ele toma uma decisão que mudará seu destino para sempre: criar algo que fique entre o caos e aqueles que não podem se defender. Ao lado de Kai Mori, um estrategista tão inteligente quanto imprevisível, e Hana Tsukino, a única capaz de mantê-lo ancorado à própria humanidade, Ren dá origem à Kurokai, uma gangue que não busca fama, território ou poder apenas sobreviver sem se curvar ao medo. Mas toda maré que sobe traz consigo consequências. Enquanto alianças se formam e escolhas irreversíveis são feitas, forças muito mais cruéis observam à distância, prontas para transformar a cidade em um campo de batalha. Cicatrizes do Amanhã é uma história de ação e drama sobre destino, lealdade e o preço de tentar mudar o futuro onde cada decisão deixa marcas, e nem todas cicatrizes podem ser escondidas.

Status
Complete
Chapters
5
Rating
5.0 2 reviews
Age Rating
16+

Maré Baixa

A cidade aprendia a respirar em horários errados.

Às três da manhã, quando as luzes dos prédios fingiam sono e os trilhos do metrô ainda vibravam com passos que já tinham ido embora, Ren Aoyama permanecia acordado. Estava sentado no parapeito enferrujado da passarela que cruzava a avenida principal, as pernas pendendo sobre o vazio como se o chão fosse uma ideia distante. Dali de cima, a cidade se espalhava diante dele não como um lar, mas como um corpo ferido: rachaduras no asfalto, fachadas marcadas por pichações antigas, becos onde o silêncio nunca significava paz.

Ele observava sem pressa, como quem espera algo acontecer — ou como quem teme profundamente que aconteça.

O celular vibrava no bolso do casaco, insistente. Ren sabia quem era antes mesmo de olhar. Algumas mensagens não precisavam ser lidas para machucar. O vento frio cortava o rosto, trazendo consigo o cheiro metálico da chuva recente misturado à fumaça velha de escapamentos e lixo queimado. A cidade parecia conter a respiração, como se estivesse à beira de um espasmo.

Ren também.

A ideia ainda não tinha nome. Não tinha forma clara. Era apenas um peso constante no peito, pressionando de dentro para fora, como se algo estivesse tentando nascer — ou escapar.

Não era raiva. Raiva era simples, direta. Aquilo era outra coisa. Era a certeza incômoda de que, se ninguém fizesse nada, alguém iria desaparecer. De novo. Como já tinha acontecido antes, sem aviso, sem justiça, sem sequer um nome nos jornais.

Ren fechou os olhos por um instante, e a memória veio sem pedir permissão.

Uma rua estreita. Luzes de poste piscando. Gritos abafados. Sangue escorrendo rápido demais.

Ele abriu os olhos com força, expulsando a lembrança antes que ela criasse raízes.

Passos ecoaram atrás dele, lentos, medidos.

— Você vai cair se continuar sentado assim — disse uma voz calma demais para aquele horário.

Ren virou o rosto. Kai Mori estava encostado na grade da passarela, mãos nos bolsos do casaco escuro, postura relaxada demais para alguém que andava sozinho de madrugada. O cabelo bagunçado caía sobre os olhos atentos, que analisavam tudo em silêncio. Kai sempre parecia confortável, mas Ren sabia: aquilo era controle, não descuido.

— Se eu cair, pelo menos vou saber onde aterrissei — respondeu Ren, a voz baixa.

Kai soltou um meio sorriso, curto.

— Sempre poético quando está cansado.

Eles não eram amigos há muito tempo. Não oficialmente. Tinham se cruzado primeiro em corredores de escola, trocando olhares neutros demais para serem casuais. Depois, em becos errados, em situações que não pediam apresentações. Por fim, naquele tipo de silêncio compartilhado que só nasce quando duas pessoas entendem que algo ruim está se aproximando, mesmo sem saber exatamente o quê.

Kai se aproximou e seguiu o olhar de Ren até as ruas abaixo. Um caminhão de lixo passava devagar, como se tivesse medo de fazer barulho demais.

— Mais um comércio fechado hoje — comentou. — Três essa semana.

Ren assentiu.

— A padaria da esquina. O dono nem tentou discutir. Só sumiu.

Kai inspirou fundo, o ar frio entrando pesado.

— Eles não quebram vitrines. Não deixam aviso. Não picham nomes. — Fez uma pausa. — Só fazem as pessoas desaparecerem.

O nome da gangue não foi dito. Não precisava. A Ryūen existia como um rumor persistente, uma sombra coletiva que se estendia pelas conversas sussurradas, como um trem distante que nunca chegava à estação, mas fazia os copos tremerem nas mesas.

— Você me chamou pra isso? — perguntou Kai, finalmente. — Pra observar a cidade morrer devagar?

Ren desceu do parapeito. Quando seus pés tocaram o chão, o som foi seco, definitivo, como um ponto final mal colocado.

— Não — disse. — Te chamei porque não quero mais assistir.

Kai o encarou, o semblante sério agora.

— E o que você quer fazer?

Ren demorou a responder. Porque dizer em voz alta tornava tudo real. Tornava irreversível.

— Quero criar algo — falou por fim. — Algo que fique entre eles e quem não pode se defender.

Kai arqueou a sobrancelha.

— Uma gangue?

— Não uma gangue comum.

O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi denso. Cheio de possibilidades perigosas.

— Você sabe como isso termina — disse Kai. — Sempre termina com sangue.

— Eu sei — respondeu Ren sem desviar o olhar. — Mas fingir que nada está acontecendo também termina. Só que mais devagar.

Kai observou o rosto de Ren com atenção. Não havia brilho heroico ali. Nenhuma promessa de glória ou reconhecimento. Apenas cansaço, culpa e uma determinação crua, quase dolorosa.

— Se formos fazer isso — disse Kai —, não pode ser sobre território, ego ou fama.

— Nunca foi.

— Então vai precisar de pessoas certas. Não só fortes.

Ren assentiu.

— Já pensei nisso.


O bairro antigo ficava longe das avenidas principais, esquecido pelas reformas e pelos mapas turísticos. Era ali que a cidade escondia o que não queria mais ver. A antiga biblioteca municipal ocupava uma esquina inteira, janelas tapadas por tábuas e cartazes desbotados anunciando eventos de anos atrás.

Foi ali que eles a encontraram.

Hana Tsukino estava sentada no chão, cercada por caixas de papelão cheias de livros. Uma lanterna apoiada ao lado projetava sombras longas entre as estantes vazias. Ela usava um casaco claro, contrastando com a poeira escura do lugar.

— Vocês sabem que isso é invasão, né? — disse ela, sem levantar os olhos do livro que segurava.

Ren sorriu de leve.

— Você também está invadindo.

Hana finalmente ergueu o olhar. Seus olhos refletiam a luz fraca da lanterna, calmos demais para alguém flagrada no meio da noite. Havia firmeza ali. E algo mais profundo.

— Estou resgatando — respondeu. — Antes que alguém resolva queimar o que sobrou.

Kai cruzou os braços, observando o ambiente.

— E o que livros têm a ver com o que está acontecendo lá fora?

Hana fechou a caixa com cuidado, como se cada gesto tivesse peso.

— Tudo — disse. — Eles contam como as coisas começam. E, quase sempre, como terminam.

Ren se aproximou.

— Não queremos terminar mal.

Hana inclinou a cabeça, estudando-o.

— Ninguém quer. — Fez uma pausa. — Mas querer não costuma ser suficiente.

Ela conhecia Ren de antes. De um tempo em que a violência ainda parecia distante, um problema de outros bairros, outra geração. Foi Hana quem percebeu primeiro quando ele começou a se afastar, quando os silêncios se tornaram mais longos que as conversas.

— Você quer lutar — disse ela. Não havia julgamento na voz.

— Quero proteger — respondeu Ren.

— Essas duas coisas se confundem fácil.

— Eu sei.

Hana se levantou. A lua aparecia pela janela quebrada, pálida, observando como uma testemunha antiga.

— Então faça direito — disse ela. — Ou não faça.


Eles caminharam juntos pelas ruas vazias por horas, discutindo pouco, pensando muito. Não falaram de glória nem de vitória. Falaram de limites. De regras que precisariam existir se quisessem continuar humanos.

Quando pararam sob um viaduto abandonado, o céu já começava a clarear.

— Se alguém cair — disse Kai —, a gente não abandona.

— Se alguém errar — completou Hana —, a gente corrige. Antes que vire hábito.

Ren respirou fundo, sentindo o peso do que estavam criando.

— E se eles vierem — disse —, a gente fica de pé.

O nome surgiu sem cerimônia, rabiscado no verso de um livro antigo que Hana carregava.

Kurokai.

Maré Negra.

Porque o mar não pede permissão para avançar. Porque a maré sobe mesmo quando ninguém está olhando. E porque, às vezes, a única forma de sobreviver é aceitar a escuridão e aprender a atravessá-la junto.

Quando o sol finalmente nasceu, a cidade parecia a mesma.

Os ônibus voltavam a circular, comerciantes levantavam portas de metal com rangidos cansados, e pessoas atravessavam as ruas como se nada tivesse mudado durante a madrugada. Mas Ren sentia a diferença no ar. Era sutil, quase invisível — como a mudança de pressão antes de uma tempestade.

Eles se separaram por algumas horas, combinando de se encontrar novamente ao anoitecer. Ren caminhou sozinho por quarteirões que conhecia desde criança. Cada esquina carregava uma memória pequena demais para virar história, mas grande demais para ser ignorada. Um muro onde aprendera a pular. Um mercadinho onde certa vez se escondera da chuva com amigos que já não estavam mais ali.

O celular voltou a vibrar. Desta vez, Ren olhou.

Uma mensagem curta.

Você ouviu falar do que aconteceu no bairro leste?

Ele não respondeu. Guardou o aparelho no bolso e seguiu andando.

Pensou no que Kai dissera sobre sangue. Pensou no aviso silencioso de Hana. Pensou, principalmente, naquilo que não haviam dito em voz alta: que não existia caminho de volta.

Naquela noite, Ren retornou à passarela onde tudo começara. Olhou a cidade mais uma vez, agora sob um céu limpo demais para ser honesto. O vento soprou forte, e por um instante ele sentiu medo. Não do que viria — mas do que poderia se tornar.

Ainda assim, permaneceu.

Porque algumas decisões não nascem da coragem, mas da exaustão.

Em algum lugar, olhos atentos observavam os mesmos bairros com intenções muito diferentes. Planos eram traçados, nomes eram riscados, destinos começavam a ser empurrados para direções irreversíveis.

A maré começava a subir.

E desta vez, não haveria como fingir que ela não existia.