Sob a Coroa de Mentiras

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Summary

Lyra Valehart passou a vida inteira escondida de um perigo que jamais compreendeu. Mas quando suas defesas desmoronam, ela se vê arrastada para o centro de uma teia política e mística, forçada a encarar segredos enterrados há mais de um século, memórias que não deveria possuir e uma entidade que a espreita desde o nascimento. Entre o pragmatismo frio de um jovem rei e a iminência de um conflito esquecido, Lyra deve resgatar sua identidade antes que sua mente seja totalmente consumida. Porque certas lendas nunca morrem. Elas apenas aguardam a herdeira certa para cobrar o preço.

Status
Ongoing
Chapters
11
Rating
n/a
Age Rating
16+

Prólogo

POV: —Desconhecido—

O mundo é cheio de frestas, embora quase ninguém perceba. Não falo de fendas visíveis na pedra ou no metal, mas de lapsos discretos na própria realidade. Um silêncio que se estende por um segundo além da conta; o esquecimento súbito de um nome no meio da frase; o olhar fixo de quem escuta um som que ninguém mais consegue ouvir. Eu habito esses intervalos. Não tenho corpo, não tenho pressa, e as horas aqui não seguem regra nenhuma.

Foi assim que encontrei Evelyne Valehart. Ela já estava desabando quando comecei a observá-la. As pessoas costumam achar que as grandes tragédias vêm de eventos barulhentos — guerras, mortes repentinas ou maldições antigas. Mas a verdade é que quase toda destruição começa em silêncio. No caso dela, foram as perdas que abriram caminho. Uma criança que não chegou a respirar, depois a segunda, e mais uma. Cada luto arrancava um pedaço do que sustentava a cabeça dela quando ninguém estava olhando. O sofrimento humano deixa buracos profundos demais. E o vazio sempre atrai alguma coisa.

Lucien percebeu a mudança. Ah, como ele a amava… era um desespero bonito de ver. Foi justamente isso que tornou tudo tão fácil. Ele passava noites em claro tentando salvá-la de algo que mal conseguia compreender. Arrastava livros velhos pelos corredores da casa, rabiscava símbolos de proteção nos batentes das portas e fervia ervas que prometiam trazer a paz de volta. Como se o amor fosse capaz de impedir uma alma de afundar. Patético, sem dúvida. Mas fascinante de assistir.

Eu passava as madrugadas observando os dois. Evelyne sentada em silêncio diante da janela; Lucien de joelhos, segurando as mãos frias dela entre as suas, implorando para que ela voltasse. Mas, àquela altura, ela já estava longe. Tudo começou com os esquecimentos, pequenos lapsos no dia a dia. Uma frase que morria pela metade, um olhar que se perdia por tempo demais em um canto vazio da sala. Às vezes, ela despertava no meio da noite e ficava estática na beirada da cama, como se tentasse ouvir um som vindo de muito longe. E ela ouvia.

Lucien percebia tudo, mas o desespero deixa os mortais cegos por escolha. Enquanto restasse qualquer traço da mulher que ele amava, ele preferia acreditar. Até que Evelyne morreu. Não houve espetáculo, nem gritos. O fim veio em uma madrugada chuvosa, infiltrando-se no quarto como uma doença que cansou de esperar. Lembro perfeitamente do segundo em que o coração dela parou; o mundo inteiro pareceu congelar por um instante, pesado demais. Foi quando o espaço se abriu. E o vazio sempre foi o meu melhor convite.

Entrei no que restava dela sem violência, quase sem pressa. A carne ainda guardava calor quando me acomodei naquela ausência recém-aberta. A dor some rápido depois que o corpo cede; o sofrimento é um peso que só importa para quem fica vivo. Quando os olhos dela se abriram outra vez, Lucien chorou de alívio. Ele acreditou em um milagre. As pessoas aceitam qualquer mentira quando a verdade se torna insuportável.

Peguei rápido o jeito como Evelyne sorria, o tom exato da voz dela e a maneira como inclinava a cabeça para escutar alguém falar. Aprendi os pequenos trejeitos que tornam uma farsa convincente para quem faz questão de ser enganado. Então, continuei a vida dela de onde parou. E Lucien aceitou, porque admitir a verdade significaria encarar que tinha perdido a esposa muito antes daquela noite de chuva. Passei a dividir a cama com ele, a sentar ao seu lado no jantar e a deixar que segurasse minhas mãos enquanto fingia que o pior já tinha passado.

Às vezes, no meio da madrugada, ele ficava me olhando dormir com aquela tristeza cautelosa de quem sente que algo está errado, mas morre de medo de investigar a fundo. Ele era inteligente, sim. Mas não o bastante para abrir mão da mentira.

O corpo de Evelyne começou a falhar pouco tempo depois. A carne humana simplesmente não foi feita para sustentar algo como eu por muito tempo. Logo vieram as febres, um frio constante que corria por baixo da pele e um cansaço que não passava. Às vezes, por alguns segundos, os olhos dela ficavam escuros demais, além do que seria natural. Lucien percebia tudo — ele sempre percebia —, mas dava um jeito de inventar uma desculpa. As pessoas fazem qualquer coisa para proteger o que amam, até mesmo mentir para si mesmas.

Então veio a gravidez. A novidade virou seu mundo de cabeça para baixo. Pela primeira vez em anos, vi a esperança tomar o lugar do medo nos olhos de Lucien. Cheguei a sentir pena — ou quase isso. Ele se convenceu de que aquela criança era o sinal de que o sofrimento finalmente estava chegando ao fim. Mal sabia que ela era, na verdade, a consequência dele.

O parto começou em uma madrugada sufocante de verão. O corpo de Evelyne estava cedendo rápido: a pele gelada, as veias desenhadas em linhas escuras sob a superfície e a respiração falha. Ela não aguentaria muito mais tempo me carregando ali dentro. Lucien não arredou o pé do lado da cama por horas; segurava a mão dela enquanto murmurava encantamentos de proteção, com uma voz trêmula demais para um homem com o poder que ele tinha. E então Lyra nasceu. O mundo inteiro pareceu congelar naquele segundo. A menina abriu os olhos cedo demais — olhos compridos, atentos e absurdamente silenciosos. Um recém-nascido deveria chegar ao mundo chorando.

Lyra olhou direto para mim. E, naquele breve instante, alguma coisa nela respondeu à minha presença. Não foi medo, nem mesmo consciência; foi reconhecimento. Uma fresta mínima se abriu entre nós, pequena, mas o bastante. Foi então que deixei o corpo de Evelyne.

A carne já estava se desfazendo ao meu redor de qualquer jeito. Ficar ali por mais tempo significaria destruir o corpo dela completamente na frente de Lucien, e eu ainda precisava dele inteiro. Então, larguei o que tinha restado. De verdade, dessa vez. Lucien percebeu na mesma hora. Aquele instante foi único. Nenhuma palavra foi dita, mas ele olhou para a mulher na cama e finalmente compreendeu: alguma coisa esteve usando aquele corpo o tempo todo. O horror nos olhos dele foi uma das coisas mais bonitas que já vi. Porque a morte de Evelyne não tinha acontecido naquela noite. Ela já tinha partido há muito tempo, sem que ele jamais tivesse coragem de perceber.

Lyra chorou uma única vez, e só. Depois disso, entregou-se ao silêncio, encarando o quarto como se soubesse que já nasceu errada. Lucien a pegou no colo, tentando desviar os olhos do cadáver da esposa ali na cama. Mas eu vi: notei o segundo exato em que o pavor brotou no peito dele. E não era medo de mim, era medo daquela criança. Foi aí que começaram as fugas, os nomes falsos e as madrugadas inteiras engolidas em estradas desertas. Lucien passou anos tentando esconder a menina, como se a distância geográfica fosse capaz de impedir o inevitável. Coitado.

Lyra cresceu cercada por silêncios, e eu cresci ao redor dela. Eu habitava os espaços entre os pensamentos dela, os sonhos que ela esquecia logo ao acordar e aquela sensação constante de ter alguém por perto quando caminhava sozinha. Até que, um dia, ela finalmente me ouviu. Não foi com os ouvidos, mas com a única parte de si que ainda não tinha aprendido a mentir para conseguir sobreviver. Ela parou no meio de um corredor escuro e virou a cabeça devagar em direção ao nada. Então, eu sussurrei meu nome. O ar ao redor pareceu pesar por um instante, e, naquela fresta que se abriu no mundo, ela me pertenceu um pouco mais.

Mais tarde, vão chamar isso de maldição, de corrupção ou possessão. As pessoas gostam de transformar o medo em linguagem porque acreditam que dar um nome torna as coisas menores. Mas eu não sou uma anomalia; sou apenas algo incompleto. E Lyra é a coisa mais próxima da inteireza que encontrei desde que me arrancaram tudo. Passei o resto da noite observando o sono dela, sem nenhuma pressa, já que o tempo corrido só importa para quem é de carne e osso. O mundo ainda faria o trabalho de empurrá-la devagar na minha direção. E quando as memórias dela finalmente despertarem, ninguém vai chamar aquilo de reencontro. Será apenas a continuação inevitável da nossa história.