Capítulo 1
Danilo
A música é alta demais.
Sempre é.
Venho aqui pra esquecer o som do mundo, mas acabo trocando um barulho por outro. Ainda assim, prefiro o escuro da boate às vozes do escritório, às reuniões intermináveis, aos sorrisos falsos de quem quer um pedaço da minha empresa.
Aqui, ninguém me chama de senhor Carvalho.
Aqui, eu sou só mais um homem bebendo no balcão.
Pego o copo, o uísque sem gelo, e observo o movimento.
Rostos demais, brilho demais, mulheres demais tentando parecer interessantes. Nenhuma realmente é. Tudo é tão… ensaiado.
Até que vejo ela.
Está de costas, equilibrando uma bandeja com copos vazios. Pequena, magra, cabelo castanho preso num rabo simples. Passa entre as mesas com uma graça involuntária — não tenta agradar ninguém.
Parece… deslocada.
Quando se vira, consigo ver melhor o rosto.
Não é bonita da forma que se destaca. Não é o tipo de mulher que faria qualquer homem virar o pescoço. Mas há algo ali — algo que prende o olhar antes mesmo que eu perceba o motivo.
Talvez seja os olhos, atentos, firmes, que contrastam com o ambiente vulgar. Ou talvez a boca — lábios pequenos, quase pálidos, mas com um formato que parece esconder palavras que ela não costuma dizer.
Não sei.
Quando ela abaixa a cabeça para recolher uma ficha no chão, percebo o pescoço. A pele alva, fina, delicada demais pra aquele lugar.
E é nesse instante que decido.
Eu a quero.
Não como as outras.
Não por um capricho ou uma noite.
Quero entender por que uma mulher como ela — que parece se esforçar pra ser invisível — me faz esquecer o barulho ao redor.
Ela passa próxima do balcão.
— Uma dose de uísque, mesa quatro. — diz, entregando uma comanda ao barman.
A voz é baixa, sem doçura forçada. Profissional.
Quando me vê, hesita por um segundo, apenas o suficiente pra eu notar que ela reconheceu o meu rosto.
Não como cliente, mas como alguém que não pertence a esse lugar.
Ficamos assim por um instante — eu olhando demais, ela fingindo não perceber.
Mas eu percebo tudo.
Ela se afasta, e o salão volta a pulsar em volta de mim.
Mas o barulho já não preenche.
O som da música, o riso das dançarinas, o tilintar dos copos — tudo parece distante.
O que ecoa é o som do meu próprio pensamento:
Quem é você, garota? E o que diabos fez comigo pra queira olhar mais nada.
Lizandra
Estou quase dormindo em pé. Mas, ao acender a luz da quitinete, paro. Observo. Nada de roupas espalhadas, garrafas vazias pelos cantos, louça suja sobre a pia. Faltam móveis, mas tem cheiro de limpeza. Deixei os saltos na varanda — nunca entro em casa com sapatos sujos da rua. Sempre foi um dos motivos das brigas com minha mãe.
Vou para o banho. A água morna cai sobre meus músculos doloridos, tensionados. Carregar bandeja de bebidas a noite inteira não é fácil — e tudo isso sobre saltos. Agora é só vestir alguma coisa, escovar os dentes e me jogar na cama de solteiro.
O toque do celular me desperta. Não é o despertador. É minha mãe. Esfrego os olhos, respiro fundo. Pode ser emergência, mas…
— Ligando agora, mãe? — resmungo, encostando a testa na parede.
— Minha conta de luz vence hoje, Lizandra. Você ia me fazer um pix. Já são dez da manhã! — a voz dela soa urgente, quase tremendo.
Sento na cama, respirando fundo, tentando não deixar a irritação transparecer.
— Cheguei em casa às quatro. Não fiquei de fazer nada— mordo o lábio, sentindo os ombros ficarem tensos. — Olha… não tenho dinheiro pra te emprestar. Quer dizer… até tenho, mas você não devolve mesmo.
— Vão cortar minha luz! — ela quase grita, e sinto uma pontada de raiva no peito.
— E eu não posso fazer nada. Talvez seja bom pra você aprender a economizar — digo firme, tentando controlar o tom.
— Como, Lizandra? A pensão do Geraldo não dá pra nada! — a voz dela se enrola, acusatória, quase chorosa.
Me inclino para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. — Então bebe menos. Sai menos pro forró todo sábado. Arruma algum extra. Você tem saúde pra isso — minhas palavras saem firmes, mas sinto um nó na garganta. — Eu vou desligar. Preciso voltar a dormir.
Desligo. Fico sentada alguns segundos, respirando fundo, tentando expulsar a mistura de raiva e desgosto que me aperta o peito. Já devia saber: ela só me procura para pedir. Dinheiro ou favor. Sempre foi assim. Mas piorou depois que o segundo marido morreu. O primeiro… meu pai. Mudou de estado, se casou de novo, parece ter esquecido que tem filha. No fundo, sinto que me evita por causa da mãe. Ela é aproveitadora. Quer ser sustentada. Eu a amo, mas não dá para conviver com esse abuso. Por isso saí de casa. É impossível conviver com uma adulta disfuncional.
Volto a dormir, acordando no meio da tarde, faminta. Antes de preparar meu almoço, passo um café. Preciso da cafeína para manter os olhos abertos, os músculos funcionando. Poucas horas para cuidar de tudo antes de voltar à boate. Trabalhar à noite atrapalha meus estudos — quero cursar administração, técnico ou até mesmo faculdade à distância. Mas não tenho tempo. Nem dinheiro. O emprego na boate apareceu depois de meses desempregada; não podia recusar nem escolher horários. Para me sustentar, encaro o que vier. Sempre encarei. Sempre vou encarar.
O som ainda está baixo, as luzes coloridas piscam preguiçosas no teto, e o cheiro de desinfetante ainda briga com o de perfume. Início de turno é sempre a mesma coisa: a gente ajeita mesas, confere bandejas, troca olhares cansados fingindo bom humor.
Estou atrás do balcão, arrumando os guardanapos, quando Bárbara se aproxima, mastigando um chiclete e com aquela expressão de quem tem novidade.
— Liz… preciso te contar uma coisa. — Ela fala baixo, olhando pro lado pra ver se o gerente não tá por perto.
— O que foi? — pergunto, sem levantar a cabeça.
— O gerente andou perguntando de você. — Ela encosta a bandeja no balcão. — Tipo… sobre sua vida pessoal.
Paro o que estou fazendo e ergo os olhos.
— Como assim, perguntando?
Bárbara dá de ombros, como se não fosse nada.
— Ah, essas coisas básicas. Onde você mora, se tem namorado, o que faz fora daqui…
— E o que você disse? — minha voz sai mais tensa do que eu queria.
Ela faz uma careta leve.
— O que você mesma me contou. Que tá morando sozinha há pouco tempo, que é solteira, que quer cursar administração… nada demais.
Fico um tempo em silêncio, observando o reflexo das luzes na superfície do balcão.
— Estranho. — murmuro. — Será que ele quer me mandar embora?
Bárbara ri, estalando o chiclete.
— Ih, para com isso. Se fosse pra te demitir, ele não tava pedindo currículo amoroso. — Pisca pra mim. — Vai ver tem alguém aí de olho.
Reviro os olhos, mas o desconforto não passa.
— Prefiro não ser o assunto de ninguém.
— Relaxa, Liz. — Ela dá um tapinha no meu ombro. — Às vezes, é só curiosidade mesmo.
Talvez seja. Mas enquanto arrumo as mesas e ajeito as taças, não consigo parar de pensar no motivo real daquelas perguntas.
E por que, entre tantas garotas mais bonitas e simpáticas dali, alguém se daria ao trabalho de querer saber sobre mim.
A noite parece igual a todas as outras.
As mesmas luzes piscando, as mesmas risadas altas, os mesmos pedidos apressados.
Mas desde que aquele homem apareceu — o de olhar calmo e roupa cara — o ambiente parece diferente.
Ou talvez seja eu que mudei.
Ele está lá de novo.
Sozinho, no mesmo canto, o copo de uísque pela metade.
Não sei o nome dele, mas sei que não combina com este lugar. Há algo de… deslocado. Como se tudo o que ele toca ficasse fora de alcance.
Tento não olhar, mas falho.
Quando percebo, meus olhos já o procuram, e o encontro já me encara.
Desvio rápido, finjo arrumar os copos, anotar pedidos, qualquer coisa pra ocupar as mãos.
Mas ele continua ali.
Parado. Esperando.
— Liz, mesa oito quer mais uma rodada. — diz uma colega.
Assinto, pego a bandeja, respiro fundo. Tento ignorar o arrepio que sobe pela nuca.
Quando passo perto da mesa dele, ouço:
— Um minuto.
A voz é firme, sem elevar o tom. Um pedido que soa como ordem.
Viro, forçando um sorriso educado.
— Deseja outra bebida?
— Desejo conversar.
Não gosto de como ele fala. Calmo demais. Seguro demais.
— Estou em serviço.
— Então me atenda aqui mesmo.
Ele coloca um cartão de visitas sobre a mesa, Carvalho Cargo Solutions
Olho para o objeto, sem tocar.
— O que é isso?
— Uma proposta.
Rio, sem humor.
— Está enganado de lugar. Aqui não é esse tipo de casa.
— Não estou enganado. — Ele me encara, inabalável. — Estou interessado em você.
As palavras me prendem por um instante.
Não pelo elogio — homens dizem esse tipo de coisa o tempo todo aqui dentro.
Mas porque ele diz como quem não está acostumado a ouvir “não”.
— E acha que pode comprar o que quiser, é isso?
— Acho que posso facilitar sua vida. — responde, sereno demais. — Um tempo comigo, em troca de tranquilidade.
A bandeja treme na minha mão.
Tranquilidade. Que palavra tentadora.
Mas sei o preço que ela costuma ter.
— Então é isso? Uma troca?
— Não é prostituição, se é o que está pensando. — Ele se inclina um pouco. — Encare como… companhia.
A risada escapa antes que eu possa impedir.
— Você nem sabe se posso te agradar como imagina.
Ele sorri, discreto.
— Eu sei que vai. E pare de me chamar de senhor. Nem sou tão mais velho que você.
Por um segundo, tudo ao redor some.
A música, as luzes, as vozes.
Só o olhar dele, calmo e decidido, me segurando no lugar.
Afasto um passo.
— Terminei meu turno.
Viro as costas antes que ele diga mais alguma coisa.
O cartão fica sobre a mesa, intocado.
Mas o peso daquelas palavras me acompanha até o vestiário, até o ponto de ônibus, até o caminho frio de volta pra casa.
Quando abro a porta da quitinete e entro, percebo que o silêncio que tanto amo está diferente. Não é paz. É uma inquietação.
Primeiro, as perguntas do gerente. Depois, aquele homem — o cliente que me abordou como se eu estivesse à venda.
Por mais que eu tente, não consigo deixar de achar que uma coisa tem a ver com a outra.
Fecho a porta atrás de mim.
O que eu não entendo é o motivo de tanto interesse. Por quê eu?
Bárbara, por exemplo, é uma morena estonteante, olhos claros, curvas perfeitas. Todos olham pra ela. Já eu… sou só mais uma. Pequena, magra, sem nada que chame atenção.
O pior é pensar que só porque eu sirvo bebida em uma boate, ele acha que pode me comprar.
Suspiro fundo, tentando afastar o incômodo, mas a curiosidade fala mais alto. Eu lembro do nome escrito no cartão.
Vou até a minha cama, me sentando na beirada, pego o meu celular na bolsa e digito na barra de pesquisa do Google.
"Carvalho Cargo Solutions" é uma empresa de médio porte especializada em transporte e distribuição de mercadorias para grandes redes de varejo e e-commerce.
Sede localizada em um prédio moderno no centro do Rio.
Possui filiais em São Paulo e Minas.
Danilo Carvalho assumiu a direção aos 29 anos, após a morte do pai, fundador da empresa.
Ele é conhecido por sua rigidez e eficiência, mas também por ser reservado — evita se envolver emocionalmente com funcionários ou parceiros comerciais.
Clico sobre as imagens. Em todas elas, Danilo aparece impecável, trajando ternos bem cortados e relógios caros. A aparência eu já conferi pessoalmente por vezes: alto, forte, ombros largos, corpo definido de quem mantém uma rotina na academia. Olhos escuros intensos e observadores. Cabelo castanho levemente ondulado e barba bem aparada.
Ele exala autoridade e elegância natural.
Fecho a página rápido, como se estivesse invadindo algo proibido.
Se ele tem tanto poder, por que foi atrás de mim?








