Capítulo 1
Cecília Cross morreu numa terça-feira.
Não foi dramático. Não houve tempo para últimas palavras, para arrependimentos organizados ou para aquela clareza que os livros prometem chegar no final. Foi só uma dor no peito, aguda e breve, e depois nada.
Vinte e oito anos. Parada cardíaca.
Ela nem terminou o café.
O que veio depois não era o que os livros descreviam tampouco.
Sem luz no fim do túnel. Sem parentes falecidos estendendo a mão. Sem paz.
Só um branco absoluto e uma voz — seca, levemente entediada, como quem lê um relatório pela décima vez no mesmo dia.
— Cecília Cross. Vinte e oito anos. Morte por parada cardíaca às 07h43. Confirmado.
Cecília olhou ao redor. Não havia nada para olhar.
— Onde estou?
— Em trânsito. Uma pausa curta, burocrática. — Houve um incidente.
— Um incidente.
— O personagem designado para o corpo de referência morreu prematuramente. Falha de processamento. O corpo ficou vazio.
Cecília levou um momento para processar isso.
— Que corpo?
— Victor Vesper. Dezoito anos. Herdeiro do Grupo Vesper. Personagem secundário da obra catalogada como...
— Para. Ela ergueu a mão, ou pelo menos teve a sensação de erguê-la. — Personagem?
— Correto. A voz não demonstrou nenhum interesse pela sua confusão. — Um corpo vazio não pode permanecer vazio por tempo prolongado. A única alma disponível no momento do incidente era a sua.
O silêncio que se seguiu foi dela. Não da entidade.
— Não me perguntaram.
— Não havia tempo hábil para consulta.
— Eu acabei de morrer.
— Correto. Por isso estava disponível.
Cecília ficou quieta por um momento. Havia uma lógica absurda nisso que ela não conseguia refutar, e isso a irritou profundamente.
— E se eu me recusar?
Uma pausa ligeiramente mais longa desta vez.
— O prazo para recusa já expirou. O processo foi concluído.
— Então por que estão me contando isso agora?
— Protocolo de transparência pós-transferência.
Ela respirou fundo. Ou teve a sensação de respirar.
— Vocês me jogaram no corpo de outra pessoa sem pedir e agora me explicam por protocolo.
— Correto.
— E esse Victor Vesper. Ela falou o nome devagar, testando o peso dele. — Quem é?
— Personagem secundário. Função narrativa limitada. Herdeiro incompetente designado para obstruir os protagonistas em momentos específicos e morrer no capítulo final da obra.
— Ele morre.
— No capítulo final. Correto.
Cecília processou isso.
Ela havia morrido. Havia sido colocada no corpo de um personagem secundário de uma história que não era dela. E esse personagem tinha data de morte marcada.
— Quando terminar a história, ela disse devagar, o que acontece comigo?
A primeira hesitação real.
— Seu corpo original será restaurado. Sua identidade será devolvida.
— Meu corpo que teve parada cardíaca.
— Será restaurado.
Não era exatamente uma garantia tranquilizadora. Mas era alguma coisa.
Cecília ficou em silêncio por um longo momento. Pensando. Organizando. Vinte e oito anos haviam lhe ensinado pelo menos isso — quando a situação é absurda demais para controlar, você controla o que puder.
— Esse Victor Vesper. Ela voltou ao nome. — Ele é rico?
— O Grupo Vesper é uma organização de porte intermediário com ativos consideráveis, sim.
— E a história já começou?
— Está nos estágios iniciais.
— Então ainda há tempo antes da morte dele.
— Anos, presumivelmente.
— Certo. Ela deixou o peso da palavra assentar. — Mais alguma coisa que eu precise saber?
Uma pausa.
— Houve uma... observação interna, durante o processo.
— Que observação?
— A alma transferida é feminina. O corpo de destino é masculino. Outra pausa, desta vez com algo que poderia ter sido constrangimento, se a voz fosse capaz disso. — Percebemos após a conclusão do processo.
Cecília esperou.
— E?
— Pedimos desculpas pelo inconveniente.
— Pedem desculpas.
— Correto.
Ela deixou o silêncio durar o suficiente para ser desconfortável.
— Certo. A voz de Cecília saiu completamente plana. — Pode me transferir.
Ela abriu os olhos para um teto que não era o seu, num corpo que definitivamente não era o seu, com dezoito anos que também não eram os seus.
Ficou deitada por alguns minutos, olhando para o teto.
Depois se levantou, foi até o espelho mais próximo e ficou olhando para o rosto de Victor Vesper por um tempo razoável.
Cabelo preto. Ossos do rosto afiados. Olhos escuros.
Objetivamente, não era um rosto ruim.
Ela virou de lado. Depois para o outro lado.
Poderia ser pior, concluiu, com a objetividade de alguém avaliando um apartamento alugado que não era exatamente o que esperava mas servia para o período.
Depois foi procurar informações sobre o Grupo Vesper.
Tinha uma história para analisar e um cofre para localizar.








