O aluno novo
Às 7h18 da manhã, o Colégio Horizonte estava cheio.
Lucas Almeida atravessou o portão com os fones de ouvido, embora não estivesse ouvindo música. Gostava de parecer ocupado quando não queria conversar.
— Lucas!
Ele continuou andando.
— Lucas!
Rafael Costa finalmente o alcançou.
— Você está surdo?
Lucas tirou um dos fones.
— Bom dia para você também.
— Temos prova de matemática.
Lucas parou.
— Hoje?
— Hoje.
— Eu esqueci.
Rafa sorriu.
— Eu sabia.
— Você estudou?
— Também esqueci.
Os dois riram e seguiram pelo corredor.
Perto da sala, encontraram Ana Clara.
— Vocês viram o aluno novo? — ela perguntou.
— Qual? — Rafa respondeu.
Ana apontou discretamente para a diretoria.
Um garoto estava parado ao lado da porta. Usava o uniforme, carregava uma mochila preta e observava o corredor.
Lucas percebeu algo estranho.
Ele não parecia perdido.
Parecia estar procurando alguma coisa.
— O nome dele é Miguel Santos — Ana explicou.
— Como você sabe? — Lucas perguntou.
— Ouvi algumas pessoas comentando.
O sinal tocou.
Todos entraram.
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A primeira aula era literatura.
A professora Camila Duarte entrou carregando alguns livros. Poucos minutos depois, a diretora Patrícia apareceu acompanhada de Miguel.
— Pessoal, este é Miguel Santos. Ele vai estudar com vocês.
Miguel apenas acenou.
— Pode sentar perto da janela — disse Camila.
Ele passou pelas carteiras e se sentou.
A aula começou.
Durante alguns minutos, tudo pareceu normal.
Então Miguel levantou a mão.
— Professora?
— Sim?
— A senhora conhece a história antiga da escola?
Camila parou.
— Como assim?
— A história antes das reformas.
A professora ficou alguns segundos em silêncio.
— Conheço algumas coisas.
— E o Projeto Norte?
O livro que Camila segurava fechou-se com um pequeno estalo.
Lucas percebeu.
— Não faz parte da matéria — ela respondeu.
Miguel assentiu.
— Entendi.
Camila voltou à explicação.
Lucas, porém, não conseguiu mais prestar atenção.
Projeto Norte.
Ele nunca tinha ouvido aquele nome.
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No intervalo, os três amigos se sentaram no pátio.
— Vocês perceberam a reação dela? — Ana perguntou.
— Sim — Lucas respondeu.
Rafa abriu um pacote de biscoitos.
— Eu não percebi nada.
Ana olhou para ele.
— Você nunca percebe nada.
— Percebo quando estou com fome.
Lucas riu.
— O que vocês acham que é esse projeto?
— Algum projeto antigo de informática — Rafa respondeu.
— Talvez — Ana disse.
Lucas olhou para Miguel.
O garoto estava sozinho perto de uma árvore.
— Vou perguntar para ele.
— Cuidado — Rafa disse.
— Por quê?
— Porque ele tem cara de quem sabe mais do que fala.
Lucas levantou.
— Exatamente por isso.
Ele caminhou até Miguel.
— Ei.
Miguel levantou os olhos.
— Lucas, certo?
Lucas estranhou.
— Como sabe meu nome?
— A professora falou.
— Ah.
Lucas apontou para o prédio.
— Você conhece o Projeto Norte?
Miguel ficou em silêncio.
— Por que quer saber?
— Porque você perguntou sobre ele.
Miguel desviou o olhar.
— Algumas coisas são melhores quando permanecem esquecidas.
Lucas franziu a testa.
— Isso não respondeu.
— Eu sei.
Miguel saiu.
Lucas ficou olhando para ele.
Aquela resposta parecia menos uma opinião e mais um aviso.
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Naquela noite, Lucas estava no quarto quando o celular vibrou.
Número desconhecido.
“Você quer saber o que aconteceu com Daniel?”
Lucas digitou:
“Quem é Daniel?”
A resposta veio rapidamente.
“Procure a fotografia que tiraram do mural.”
Lucas ficou confuso.
“Que mural?”
“A que não deveria ter desaparecido.”
Depois:
“E não confie no aluno novo.”
Lucas ficou olhando para a tela.
Digitou:
“Quem é você?”
Nenhuma resposta.
Então veio a última mensagem:
“Descubra antes deles.”
Lucas abriu o navegador.
Pesquisou o nome da escola junto com “Daniel” e “Projeto Norte”.
Encontrou poucas coisas.
Até encontrar uma fotografia antiga do Colégio Horizonte.
Era um mural histórico.
Lucas ampliou a imagem.
Havia dezenas de fotografias.
E uma delas estava faltando.
Abaixo do espaço vazio estava escrito:
2009 — Projeto de Tecnologia Educacional.
Lucas sentiu um arrepio.
A mensagem estava certa.
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Na manhã seguinte, chegou mais cedo à escola.
Foi direto ao mural.
A fotografia realmente não estava lá.
Lucas se aproximou.
— Você veio.
Ele virou.
Miguel estava atrás dele.
— Você sabia que eu estaria aqui?
— Sabia.
— Como?
Miguel olhou para o espaço vazio.
— Daniel também procurou essa fotografia.
Lucas ficou sério.
— Quem é Daniel?
Miguel demorou para responder.
— Meu primo.
— O que aconteceu com ele?
Miguel respirou fundo.
— É isso que estou tentando descobrir.
— Você veio para cá por causa dele?
— Sim.
Lucas sentiu que finalmente tinha encontrado uma resposta.
— E o Projeto Norte?
Miguel olhou para o mural.
— Daniel descobriu algumas coisas sobre esse projeto.
— Quais?
— Ainda não sei tudo.
— Então por que você está aqui?
Miguel colocou a mochila no ombro.
— Porque ele deixou pistas.
Lucas deu um passo à frente.
— E você confia em mim?
Miguel sorriu de leve.
— Ainda não sei.
O sinal tocou.
Miguel começou a andar.
Lucas chamou:
— Miguel!
Ele parou.
— O que aconteceu com Daniel?
Miguel ficou em silêncio por alguns segundos.
— Essa é exatamente a pergunta que você não deveria fazer.
E foi embora.
Lucas permaneceu diante do mural.
A fotografia desaparecida parecia pequena.
Mas agora havia uma história ligada a ela.
Uma história que envolvia Miguel.
Daniel.
O Projeto Norte.
E alguém que estava observando tudo de longe.
Lucas ainda não sabia por que havia recebido aquelas mensagens.
Não sabia quem estava escondendo a verdade.
E não sabia por que aquela fotografia tinha sido retirada.
Mas tinha certeza de uma coisa.
Aquela história estava apenas começando.