a casa amarela
Quando Miguel voltou para a cidade, a primeira coisa que percebeu foi que o rio continuava ali.
A segunda foi que a casa de sua avó parecia menor.
Ele ficou alguns segundos parado diante do portão enferrujado, segurando uma mala numa mão e um envelope na outra. Havia passado doze anos desde a última vez que entrara naquela casa. Doze anos desde o enterro de Dona Alzira, sua avó, a única pessoa que conseguira fazê-lo acreditar que algumas coisas no mundo ainda valiam a pena.
A casa era amarela. Sempre fora.
- Você demorou - disse uma voz atrás dele.
Miguel se virou.
Era Clara.
Ela tinha o mesmo jeito de olhar que lembrava de quando eram crianças: como se soubesse alguma coisa que ele não sabia.
— Você cresceu — ele respondeu.
Clara riu.
— Você também. Só ficou mais triste.
Miguel não soube o que dizer.
Entrou na casa naquela tarde. O cheiro de madeira velha e café parecia ter ficado preso nas paredes. Sobre a mesa da cozinha havia um envelope com seu nome.
Dentro, apenas uma frase escrita à mão:
“Não venda a casa antes de descobrir o que está dentro dela.”
Miguel franziu a testa.
No dia seguinte, pretendia assinar os papéis e vender tudo.
Mas naquela noite começou a procurar.
E encontrou, atrás de uma tábua solta do assoalho, uma pequena caixa de metal.
Dentro dela havia fotografias, uma chave enferrujada e dezenas de cartas.
Todas endereçadas a alguém chamado Artur.
Nenhuma havia sido enviada








