Capítulo 1
Londres, Setembro de 1875.
A mansão Moore emergia da névoa da manhã como um espectro. O ar úmido, um sopro frio e persistente, dissolvia os contornos da mansão, deixando apenas um vulto fantasmagórico contra o céu pálido. As janelas, cegas por um ano de poeira, devolviam reflexos leitosos e mudos à luz fraca. A hera, implacável, cravava gavinhas grossas como dedos ossudos na pedra, sondando as fendas do reboco como se buscasse estrangular a vida que restava na estrutura decadente.
Um ano. Doze meses desde que o último suspiro do pai se fora. E a mansão, agora um fardo nas mãos de um primo distante – uma figura quase estranha –, parecia espelhar o destino das jovens herdeiras: esquecimento lento, negligência infiltrando-se como mofo, a um passo da ruína.
O nome Moore, outrora sólido, desfizera-se com as apostas desastradas do Barão no mercado financeiro. A fortuna virou pó, e os criados se dispersaram como folhas ao vento. Todos, exceto dois. Benson, o mordomo, hirto como um carvalho velho em meio à decadência, era a memória viva do Barão. E a Sra. Holloway, sua esposa, guardiã de uma cozinha outrora vibrante e agora de uma lareira quase fria, recusava-se a partir. Tinham visto as irmãs nascer, cuidado delas em febres noturnas, testemunhado bailes que agora eram apenas cintilações na memória. Sua lealdade era o único alicerce firme naquela casa que ruía.
Nesse cenário de lenta desintegração, Evelyn buscava uma solução desesperada. Seus dedos roçaram o corrimão áspero de mogno enquanto subia a escada estreita para o sótão. Cada degrau gemia sob seus pés, um protesto engolido pelo silêncio denso do hall. Era um silêncio com cheiro azedo de poeira, gesso úmido e o hálito adocicado e fúnebre do mofo. Agarrou-se à tênue esperança de encontrar ali, entre os destroços do passado, alguma relíquia esquecida, algo de valor para aliviar o nó de desespero em sua garganta. Desde a morte do pai, as pesadas portas da entrada permaneciam trancadas. O novo Barão? Uma visita apressada após o testamento, um olhar de desagrado para o teto manchado, pêsames protocolares e uma partida rápida. A casa e suas moradoras eram apenas um incômodo a ser esquecido.
— Eliza? — A voz de Evelyn soou pequena no corredor superior.
— Aqui! Perdida num mar de pó! — A resposta veio de cima, abafada, mas vibrante.
Encontrou a irmã gêmea banhada por um facho de luz que invadia a vidraça suja de uma água-furtada. Partículas de poeira dançavam lentamente ao seu redor, como fantasmas minúsculos. Eliza, cabelos escapando do penteado, uma nódoa de sujeira na bochecha como medalha de exploradora, parecia uma aparição teimosamente jovial em seu vestido desbotado, cercada por baús que guardavam os restos de vidas passadas.
— Temo que não haja tesouros aqui — murmurou Evelyn, afastando uma teia de aranha da manga. Um gosto amargo subiu-lhe à boca. — Pensar que chegamos a isto… o nome Moore reduzido a… remexer nas cinzas da nossa história.
— Ou talvez aventureiras prestes a encontrar o mapa do Eldorado! — retrucou Eliza, o rosto corado pelo esforço de arrastar um baú pesado. Puxou o ar. — O suficiente para um vestido novo? Um que não pareça ter vindo de uma festa de fantasmas?
O otimismo de Eliza, pensou Evelyn com uma pontada de inveja melancólica, era como a hera lá fora: teimoso, talvez imprudente, mas agarrado à vida com força impossível.
— Um teto sem goteiras seria mais útil — suspirou Evelyn, a poeira arranhando a garganta. Mas uma lembrança dolorosa do brilho dos candelabros, das conversas sussurradas, um universo agora tão distante quanto à lua, contraiu um músculo esquecido em seu coração.
Vasculharam em silêncio, quebrado apenas pelo ranger de dobradiças e pelo baque de objetos descartados. Porcelana lascada, o mostrador mudo de um relógio parado no tempo, livros cujo couro se esfarelava ao toque – cacos de narrativas interrompidas. Eliza detinha-se nos livros, os olhos brilhando com histórias imaginadas. A esperança de Evelyn desfazia-se a cada tampa de baú rangente.
— Se ao menos Papai… — começou Evelyn, a frase morrendo no ar. — Ou Mamãe tivesse deixado o colar de pérolas…
— Ou talvez... — a voz de Eliza emergiu vibrante de trás de uma pilha de caixas de chapéu. — Algo infinitamente mais intrigante. — Segurava um pequeno volume encadernado em couro escuro. Soprou a capa, levantando uma nuvem de pó que a fez espirrar. — Atchim! Atchim! Oh, céus... Atchim!
— Um diário? — Evelyn estendeu a mão, hesitante. O couro pareceu estranhamente vivo ao toque. Reconheceu a caligrafia elegante. Um aperto no peito. — É de Mamãe… — O ar faltou por um instante. Com dedos trêmulos, abriu a primeira página. Na margem, uma anotação apressada, em outra tinta: O coração de Thalwen aguarda sob as cinzas do tempo.
As palavras pairaram no ar viciado. Antes que Evelyn pudesse processá-las, um raspar discreto veio do canto escuro do sótão. Um arrepio percorreu sua espinha. Ambas congelaram.
— Ouviu isso? — sussurrou Evelyn.
— Não! — respondeu Eliza, rápido demais, olhos fixos na penumbra. — E espero não ouvir.
Silêncio elétrico. Então, um vulto cinzento dardejou entre as sombras.
— Rato! — O grito agudo de Eliza ecoou enquanto ela recuava num salto.
Foi seu erro. O calcanhar encontrou uma tábua podre. A madeira estalou, um som seco, definitivo. E Eliza desapareceu. Num instante estava ali; no seguinte, sumira até a cintura, um grito surpreso escapando enquanto suas pernas balançavam no vazio sobre o corredor do andar de baixo.
— Valha-me Deus! Evelyn, socorro!
Evelyn piscou, a mente lutando contra o absurdo: Eliza, agarrada às bordas farpadas do buraco como uma náufraga; e lá embaixo, a figura imóvel de Benson, o rosto erguido, a boca um perfeito "O" de pasmo.
— Lady Eliza…? — A voz do mordomo era um fio de incredulidade.
— Ah, bom dia, Benson! — Eliza ofereceu um sorriso que era pura careta de pânico. — O tempo está firme hoje, não?
— Eliza! Oh, meu Deus... — Evelyn sacudiu a paralisia, lançando-se para agarrar os braços da irmã.
Nesse instante, a Sra. Holloway surgiu no corredor, atraída pelo barulho, as mãos nos quadris, o olhar varrendo a cena. — Mas que algazarra é esta? Pelo barulho, julguei que a casa tinha finalmente desabado.
— Foi só a minha dignidade que desabou, Sra. Holloway! — arfou Eliza, balançando de forma alarmante ao tentar se içar.
— Agarre-se bem, menina! — A voz de Benson ganhou um tom de alarme. — Não há dinheiro para remendar soalhos, muito menos para… despesas maiores.
— Sempre otimista, Benson! — resmungou Eliza.
Com um puxão descoordenado de Evelyn e gritos abafados de Eliza, a irmã mais nova foi finalmente arrastada de volta para a segurança precária do sótão. Caíram ofegantes no chão poeirento, no momento em que o casal de criados chegava ao topo da escada, igualmente sem fôlego.
A Sra. Holloway observou o buraco, as jovens desgrenhadas, a poeira pairando, e soltou um suspiro pesado. — Vosso pai daria voltas no túmulo se soubesse que andam a demolir a casa.
— Credo, não fale assim — estremeceu Eliza, sacudindo a poeira das saias. — Ainda sinto o roçar daquela criatura na minha perna. — Um breve silêncio. Então, Eliza sentou-se, a expressão subitamente séria. — Certo. Definitivamente, não podemos vender o assoalho.
Um riso rouco escapou de Evelyn. — Receio que não. Mas talvez… talvez tenhamos encontrado outra coisa. — Recuperou o diário caído. Ao abri-lo, sentindo o couro macio, um pedaço de pergaminho dobrado, amarelado e quebradiço, deslizou de seu interior, pousando em seu colo.
Os olhares das irmãs se cruzaram. Com dedos cuidadosos, conscientes da fragilidade do papel, desdobraram-no. Revelou-se um mapa antigo, traçado à mão. Linhas indicavam ruínas – uma abadia, identificada como Glastonbury. Pequenas constelações de pontos, anotações numa caligrafia minúscula e numa língua estranha – latim arcaico? – e, no coração de uma área circulada perto das ruínas, um símbolo: três espirais entrelaçadas formando uma triskle com um olho no centro, eterno e vigilante. Acima dele, duas luas se equilibravam, uma crescente, outra minguante, e todo o conjunto era envolto por um círculo fino como névoa. Uma ressonância profunda percorreu Evelyn ao vê-lo, um eco familiar vindo de algum lugar esquecido.
— O que é isto? — murmurou Eliza, maravilhada, traçando o olho com o dedo.
— Eu já vi isto. Tenho certeza. — Evelyn franziu o cenho. — Nos desenhos da Mamãe… lembra-se, Eliza? Das histórias dos guardiões…?
— Os guardiões da fronteira… — Os olhos de Eliza arregalaram-se.
Ao lado do símbolo, uma inscrição: “Luna… altare… clavis…” Lua… altar… chave… Fragmentos de latim flutuaram na mente de Evelyn.
Benson inclinou-se, preocupado. — Isto aí me cheira a problemas.
Mas a Sra. Holloway aproximou-se, uma fagulha de curiosidade nos olhos práticos. — Ou talvez cheire a oportunidade.
O rosto de Eliza iluminou-se. — Oportunidade! Sem dúvida! O que será ‘O coração de Thalwen’?
Evelyn soltou o ar, o olhar perdido entre o diário e o mapa. Sentia a quietude forçada de seus dias se estilhaçando. — Não faço ideia. Mas este mapa… leva à Abadia de Glastonbury.
— Glastonbury… — Benson coçou o queixo. — Fica em Somerset. Bem para o oeste.
— Somerset? — Eliza ergueu uma sobrancelha. — Mas isso… não é terrivelmente longe?
— Longe o bastante para guardar um segredo, talvez — disse Evelyn, baixo. Fechou o diário, o símbolo da espiral gravado em sua mente. Uma corrente de agitação começou a fluir sob sua resignação. — Parece que… teremos de fazer uma viagem.
A Sra. Holloway bufou, cruzando os braços. — Contanto que não arranjem mais buracos para cair pelo caminho.
Eliza sorriu, um brilho travesso nos olhos. — Mas aí, Sra. Holloway, onde estaria a graça?
Evelyn levou os dedos às têmporas. Aventura. A paz precária de Moore House estava perdida. Mas ali, em meio à poeira e à decadência, uma faísca teimosa de algo que se parecia com esperança – ou talvez curiosidade – começava a arder.