Parte 1: Ninguém morre apaixonado
14/01/26
Eu nunca, nunca, nunca, nunca mais vou amar de novo. A necessidade de usar tantas negativas tem uma justificativa. E ela é boa. Não, ela é ótima. Quase divina.
O meu namorado Jayden, de mais de dois anos, acabou de falecer. Portanto, declaro este coração oficialmente fechado para negócios. De agora em diante, não entra mais ninguém.
Dramático demais? Vocês acham mesmo? Eu não estou sendo só dramático. Eu também decidi que nunca mais vou querer sentir essa dor de novo. Amar alguém tanto num dia e no outro ele não existe mais e você não tem mais a quem dar todo esse amor.
Meu nome é Ryan Smith. Tenho 17 anos e sou só um cara comum com sonhos de me tornar um escritor de sucesso algum dia. Tenho cabelo loiro claro, liso e caindo até os ombros, quase sempre meio bagunçado, como se eu tivesse acabado de sair da cama — o que, na maioria das vezes, é verdade. Meus olhos são claros, indecisos entre verde e mel, e meu rosto tem aquele tipo de beleza que não grita, mas sussurra. Uso moletons largos, quase como armaduras, e ando com uma expressão que mistura cansaço com sarcasmo.
Jayden jurava que eu tinha talento. Mas ele também jurava amor eterno, e olha onde está agora a sete palmos do chão frio. Talvez fosse só mais uma mentira bonita, dessas que servem pra manter o sexo rolando em dias alternados. A escola, o trabalho, a família… nada disso nos permitia ficar colados o tempo todo como nós queríamos.
Então vamos só voltar um pouco pra entender como nos conhecemos e viramos esse casal fofo que os nossos amigos sempre nós diziam que éramos. Quando, na real, eu eles não sabiam das brigas por ciúmes que eu tinha com ele quando ele ia fazer trabalho de escola na casa de algum amigo — e eu conheço bem a reputação desses caras. De resto, éramos de boa.
Eu o conheci na escola, claro. O ambiente perfeito onde os hormônios enlouquecem só porque alguém tirou a camisa e reclamou que estava calor. E daí sua mente volta pra aquele tanquinho de merda com uns poucos pelos perdidos perto do umbigo toda vez que você se sente sozinho e quer um pouco de amor — e o único que consegue é o próprio. Sua imaginação te ajuda muito nisso.
Jayden era de outra sala, andava com outra galera, e eu só conhecia ele de vista. Nunca tinha parado pra falar com ele nem nada. A gente teve que se unir pra uma peça de teatro sobre a importância da natureza ou alguma bobagem dessas. Eu tinha 15 e ele 16, e só queria acabar logo o ensino médio e viver minha vida longe daqui.
Ele se aproximou de nós com aquele cabelo escuro, cortado rente, e um olhar direto que parecia sempre medir o ambiente antes de decidir se valia a pena sorrir. Tinha a pele clara, marcada por algumas espinhas discretas que ele fingia não notar, e um rosto que não era exatamente bonito — mas tinha algo. Algo que fazia você querer olhar de novo. O tipo de beleza que não se exibe, mas te desafia a decifrar. Jayden era o tipo de cara que ficava quieto no canto, mas quando falava, todo mundo ouvia. E eu ouvi aquela voz grossa.
Ele chegou e falou com o Adam, nosso amigo sempre bem-humorado. Provavelmente pensou: “Esse cara parece o mais amigável dos três.” Os três sendo eu, Adam e nossa amiga Maya, que ria que nem uma idiota de qualquer coisa — e eu ria junto, claro.
Enquanto os dois conversavam, eu só observava. Jayden tinha movimentos duros, masculinos, e eu pensava: “Até parece que esse cara vai me dar bola algum dia. Olha pra ele.”
Até que, enquanto falava com o Adam, ele olhou de repente pra mim e sorriu. Eu desci o olhar e fingi que estava olhando pra ponto qualquer, como se tivesse perdido algo lá.
Na conversa com o Adam, ficou acertado que ele ajudaria na construção dos cenários e atuaria como uma árvore ou algo assim porque segundo ele mesmo queria pagar pouco mico. Depois disso, os dois se despediram com um abraço curto — mais pra selar um acordo do que por amizade. Ele se despediu de nós e eu senti o olhar dele vir direto pra mim. Fiquei sem graça, mas me despedi me fazendo de desentendido. Sabe como é, pra não ficar tão na cara que eu estava afim dele.
Encontrei com ele de novo mais tarde, perto dos armários. Ele se aproximou de mim, e assim que fechei a porta do meu armário, ele estava lá, só me observando.
— Você me assustou — disse eu, colocando a mão no peito.
— Foi mal, princesa — disse ele, sorrindo.
— Princesa? — perguntei. — O que você quer?
— Eu só queria saber como está indo o roteiro — perguntou ele. — O Adam me falou que você vai escrever.
— Está indo bem — disse eu, colocando meus livros na mochila e depois jogando ela nas costas.
— Se quiser, posso dar uma olhada pra você — disse ele. — Dar umas dicas.
— Não precisa — disse eu. — Eu sei o que estou fazendo. Pode confiar no processo. Além do mais é só sobre árvores idiotas.
— Beleza — disse ele, me seguindo assim que comecei a andar. — E que tal almoçarmos amanhã juntos?
— Por que acha que eu quero almoçar com você?
— Sei lá — disse ele. — Achei que você podia ficar me olhando de perto amanhã, se quiser.
— Olhando? — perguntei. — Eu não estava te olhando.
— Estava sim, loirinho — disse ele. — Estava me olhando e me secando. Gostou mesmo do que viu.
— Deixa de ser convencido — disse eu, o empurrando de leve, o que fez ele rir.
— Amanhã, cafeteria, horário do almoço. O que me diz?
— Eu vou pensar — disse eu, me fazendo de difícil.
— Pensar? Pensar, Ryan? — disse ele, rindo. — Pode pensar o quanto quiser. Amanhã eu vou estar na mesa perto do relógio, só te esperando. Se quiser almoçar comigo, só cola lá.
Ele então começou a andar mais rápido, me deixando pra trás, sorrindo feito o idiota que eu sou.
Pensar? A única coisa que eu pensei a noite inteira foi nele. No sorriso dele. Na bunda dele.
Então, no dia seguinte, como se ainda houvesse alguma resistência da minha parte, eu só cheguei no refeitório e o vi sentado lá, exatamente na mesa que tinha falado. Sozinho, com duas bandejas de comida.
E eu só pensei: ele comprou mesmo uma pra mim? Que fofo. Eu não acho coisas assim fofas, mas dessa vez eu fui convencido fácil até demais.
Me aproximei devagar e me sentei na frente dele, tirando a mochila das costas. Ele levantou os olhos ao me ver e sorriu.
— Eu sabia que você ia vir, princesa — disse ele.
— Você comprou uma bandeja de comida pra mim? — perguntei.
— Eu só achei que você parecia alguém que gosta de macarrão com muito queijo.
— Eu gosto — disse eu.
— Que bom.
Nós comemos em silêncio por um tempo. De vez em quando, um olhar, um sorriso bobo escapava. Até que, de repente, ele solta:
— O que vai fazer depois da escola?
— Eu não sei — digo. — Acho que eu só vou pra casa.
— Quer ir no cinema comigo? — perguntou ele. — Gosta de filmes de terror? Eu quero ver A Noite do Desmembramento 2.
— Esse filme é classificação 18.
— Eu tenho identidade falsa — disse ele, se aproximando e cochichando isso.
— Como conseguiu uma?
— Meu primo me ajudou — disse ele.
— Uma identidade falsa? Legal — digo.
— Que bom que gostou — disse ele. — Eu prometo que vou me comportar se você aceitar o cinema comigo.
— Eu não disse ainda que ia — disse eu, enquanto ele me lança um olhar surpreso.
— Por que não? — perguntou ele. — Tem medo de filmes de terror?
— Eu não tenho.
— Tudo bem se tiver — disse ele. — Eu deixo que você segure a minha mão.
— Eu não confio tanto assim… — disse eu.
— Eu já falei que eu vou me comportar — disse ele sorrindo.
— Eu nem terminei de falar — digo. — Eu não confio tanto assim em mim. Sabe essa coisa de se comportar não tem muito a ver comigo.
Ele me olhou surpreso.
— Eu não sabia que essa era uma opção — disse ele. — Então não se comporte.
Eu sorrio.
Terminamos o nosso almoço e depois da escola, lá fomos nós ao cinema que não ficava muito longe. Ele fez questão de pagar por tudo: ingresso, pipoca, refrigerante. Eu não estava acostumado com tanto cavalheirismo — ou seja lá o que foi aquilo — só sei que eu estava cada vez mais enrolado naquela teia dele e amando.
Eu sentia que, mesmo que eu quisesse dizer não dali em diante — e quero deixar bem claro que essa palavra já não existia mais no meu vocabulário — eu não saberia nem como. Estava ficando cada vez mais caído por ele.
Durante boa parte do filme, ele se sentou ao meu lado e se comportou bem. Sem mãos bobas, sem carinhos escondidos, sem olhares trocados de forma indecente. Eu sentia que ele estava nervoso, com medo de fazer algo que não me agradasse.
Então eu fiz o que qualquer pessoa faria nessa situação: esperei um momento de suspense, daqueles recheados de jump scares bobos. O assassino aparece dentro de um armário, o cinema inteiro pula de medo, e eu coloquei meu talento em ação. Pulei também na poltrona e aproveitei pra me segurar no braço dele. Ele só sorriu assim que eu o toquei.
Ele deve ter se sentido o protetor, sabe? O homem forte ali, pronto pra me proteger do mal imaginário de um filme de quinta que não assustaria ninguém que já viu pelo menos uns cem documentários de serial killers no último ano. Mas ei, eu queria me dar bem com ele tanto quanto ele queria se dar bem comigo. Era um jogo, e eu estava pronto pra jogar.
Depois do filme, rindo, saímos do cinema. Eu ainda segurava o braço dele enquanto caminhávamos.
— O filme já terminou — disse ele, rindo.
— Eu sei — disse eu. — Quer que eu te solte?
— Não — disse ele rapidamente. — Eu não quero… ainda não.
— E agora pra onde vamos? — perguntei.
— Aonde quer ir?
— Eu não sei — disse eu. — Ainda está cedo pra ir pra casa.
— Quer ir… sei lá, no mirante?
— No mirante? — perguntei. — As pessoas só vão lá pra uma coisa.
— Eu tenho camisinha — disse ele, sem graça.
— Eu ia dizer pra olhar o porto — disse eu, rindo. — Você é muito safado.
— Me desculpa — disse ele, ficando vermelho.
— Está tudo bem — disse eu, rindo. — É bom saber que você é prevenido… e também esperançoso.
Ele sorriu.
— Eu me mantenho sempre fiel a mim mesmo — disse ele. — E então, mirante ou você quer me beijar boa noite e depois ir pra casa com a sua dignidade ainda intacta?
— Opções interessantes — disse eu, sorrindo. — Mas eu nem te conheço direito ainda. Talvez nós devêssemos ir lá só pra olhar o porto.
— Pra mim tudo bem — disse ele. — Não quero que você se sinta pressionado a nada.
— Está preocupado comigo — disse eu, rindo. — Tá com medo de que eu fale pra todo mundo sobre o tarado que você é. Querendo me levar pro mirante com camisinha e tudo o mais.
— Olha só tarado não… prevenido.
— Vamos logo — disse eu, o puxando pelo braço. — Eu quero chegar logo lá.
— Está vendo as coisas que você fala — disse ele, rindo. — Você é bem safado também.
Nós dois rimos e seguimos até o mirante que não ficava assim tão longe dali. O lugar era bonito, iluminado pelas luzes da cidade refletindo na água. Eu admito que só tinha ido lá algumas poucas vezes, nunca com ninguém pra esse tipo de coisa. Mais pra fumar uma verdinha, passar o tempo, olhar o horizonte. Mas agora, com ele ao meu lado, o porto parecia outro. Parecia que, pela primeira vez, eu estava exatamente onde deveria estar.
O resto foi quase previsível: a vista bonita, os beijos ardentes, o corpo dele colado ao meu como se fôssemos duas peças que finalmente se encaixavam. Atrás de um arbusto, no escuro, não havia nada além de nós dois — e a sensação de que nossos corpos eram a única coisa segura a que podíamos nos agarrar.
O toque dele era suave. Ele não se importava com as falhas que eu carregava, aquelas partes que sempre me causaram vergonha. Ele as admirava. Queria explorar cada detalhe de mim como se fosse um mapa secreto.
Foi tudo tão incrível que eu diria mágico. Não foi rápido, como costumava ser com outros caras. Nem tão demorado a ponto de parecer ensaiado. Foi só… nosso. E isso bastava.
Eu não queria largar dele. E não larguei. Mesmo depois, já vestidos, ainda ficamos ali por um tempo, respirando juntos abraçados, como se o mundo tivesse parado só pra nos dar essa pausa.








