O Começo da Primavera
A brisa da manhã estava fresca, mas Hana não tinha tempo para apreciá-la. Corria pelas ruas apertadas da cidade, segurando os livros contra o peito.
— Ai, não acredito que vou me atrasar logo no primeiro dia... — murmurou, quase tropeçando na calçada.
Virando a esquina, um som metálico ecoou:THUMP. Hana bateu contra alguém e, em seguida, ouviu o barulho de algo pesado caindo.
— Ei! — a voz masculina soou irritada.
Hana caiu sentada no chão, olhando em choque para a grande caixa de guitarra aberta diante dela. Dentro, um instrumento reluzia, quase intacto.
— Você tá cega? — o garoto a encarou com sobrancelhas franzidas. Tinha cabelos pretos bagunçados e olhos intensos, quase frios.
— Eu... desculpa! — Hana se levantou apressada, batendo a poeira da saia. — Eu tava atrasada e...
— Não importa. — ele a interrompeu, pegando a guitarra com cuidado. — Você devia prestar mais atenção.
A forma ríspida com que falou fez o coração dela disparar. Não pelo charme — embora ele fosse inegável —, mas pela arrogância.
— Olha, eu já pedi desculpa, tá? — Hana cruzou os braços, irritada. — Você também podia olhar por onde anda!
Ele soltou uma risada breve, sarcástica.
— Típico. Sempre a culpa dos outros.
— O quê?! — ela abriu a boca, indignada, mas ele simplesmente virou as costas e saiu andando com passos firmes, como se ela fosse invisível.
Hana ficou parada por alguns segundos, sem acreditar no que tinha acontecido.
— Quem ele pensa que é? — resmungou.
Antes de retomar a corrida até a faculdade, uma última imagem ficou presa na mente dela: os olhos do desconhecido. Havia algo neles... algo escondido, como um peso difícil de carregar.
Sem imaginar, Hana ainda iria cruzar muitas vezes o caminho daquele garoto.
E, em breve, descobriria que alguns encontros não são simples acidentes.
O coração de Hana ainda batia acelerado por causa do incidente da manhã. Enquanto ajeitava o uniforme e caminhava pelo corredor da faculdade, tentava apagar da mente o rosto daquele garoto mal-educado.
— Hana! — Miyu correu até ela, sorridente. — Você conseguiu chegar a tempo?
— Por pouco... — Hana suspirou, abrindo a porta da sala. — Mas já comecei o dia com uma baita dor de cabeça.
As duas se sentaram próximas à janela. A professora logo entrou e começou a distribuir as fichas da disciplina de Literatura Contemporânea. Hana adorava livros, então aquele seria o seu momento de brilhar.
— Pessoal, teremos alguns trabalhos em dupla. Vou chamar os nomes aleatoriamente — avisou a professora.
Hana engoliu seco. O azar dela era conhecido.
— Hana Kimura... — a professora olhou para a lista — com Yuto Sakamura.
O sangue de Hana gelou. Lentamente, ela virou o rosto e o viu entrando na sala. O mesmo garoto da guitarra. O mesmo olhar frio.
Ele a reconheceu no mesmo instante.
— Você de novo? — Yuto murmurou, com um meio sorriso debochado.
— Parece que a vida gosta de me castigar... — Hana respondeu baixinho, mas Miyu ouviu e soltou uma risadinha.
Yuto se sentou ao lado dela, sem pedir permissão. Abriu o caderno, apoiou o braço na mesa e lançou um olhar de soslaio.
— Só espero que você não derrube meu material de novo.
— Só espero que você não seja tão arrogante quanto hoje cedo.
Eles trocaram olhares tensos. Mas, por trás da irritação, havia algo estranho: uma curiosidade mútua, como se o destino tivesse costurado aquele reencontro.
Miyu, observando de longe, sussurrou para si mesma:
— Isso vai dar problema... ou uma bela história de amor.
E Hana, sem admitir, sentiu uma pontada diferente no coração.
O pátio da universidade estava decorado com luzes e bandeirinhas coloridas. Era ofestival de primavera, o evento mais esperado do semestre. Barracas de comida, apresentações musicais e risadas enchiam o ar.
Hana caminhava com Miyu, fascinada por cada detalhe.
— Não acredito que esse lugar pode ficar ainda mais bonito — Hana sorriu, observando as lanternas de papel.
— Mais bonito vai ficar quando você encontrar o “príncipe” do seu destino — Miyu cutucou, rindo.
— Para! — Hana corou. — Eu não vim aqui atrás de ninguém.
Mas, no fundo, a lembrança de Yuto voltou como um eco insistente.
De repente, o som de um violão suave se espalhou pelo ar. A multidão se reuniu diante do palco pequeno, improvisado no centro do pátio.
Hana parou. Seus olhos se arregalaram.
Era ele.Yuto.
Com a guitarra no colo, os dedos dele se moviam com delicadeza. A melodia era lenta, melancólica, quase como um sussurro de dor transformado em música.
Hana sentiu o coração apertar. Cada acorde parecia falar uma língua secreta, e de alguma forma ela a entendia.
— Uau... — Miyu comentou, baixinho. — Ele toca como se tivesse algo a dizer.
Hana não respondeu. Estava hipnotizada.
No meio da canção, Yuto levantou o olhar — e encontrou o dela.Por um instante, parecia que a música era só para Hana.
O mundo ao redor desapareceu.Era apenas o som, os olhos dele e a estranha conexão que nascia entre os dois.
Quando terminou, o público aplaudiu animado. Yuto se levantou, agradeceu com um leve aceno e deixou o palco rapidamente, sem sorrisos.
Hana ficou parada, sentindo uma mistura de admiração e tristeza.Aquela música... não era apenas uma apresentação.Era um segredo, uma ferida aberta.
Miyu segurou a mão dela e disse em tom provocativo:
— Acho que você acabou de ouvir o coração dele.
Hana engoliu em seco.Ela ainda não sabia... mas aquele som mudaria tudo na vida dela.
O sol da tarde entrava pela janela da sala de aula, iluminando as partículas de poeira no ar. Hana tentava se concentrar no livro aberto diante dela, mas o silêncio ao lado a deixava inquieta.Era impossível ignorar Yuto.
Ele rabiscava algo no caderno, expressão séria. Por um instante, Hana quis perguntar o que ele estava escrevendo, mas desistiu.
— Hana! — uma voz animada interrompeu seus pensamentos.Ela levantou o olhar e viuTakashi, sorridente, parado ao lado da mesa.
— Ah... oi, Takashi! — ela sorriu de volta, surpresa.
— Eu tava te procurando. Você vai no festival de esportes amanhã? — ele perguntou, apoiando-se na mesa dela com naturalidade.
— Festival? — Hana piscou, confusa.
— Sim! Eu jogo no time de basquete. Queria que você fosse assistir. — Ele riu, um pouco tímido. — Seria legal ter alguém torcendo por mim.
Antes que Hana pudesse responder, Yuto fechou o caderno com força.O som seco ecoou na sala, chamando atenção.
— Você tá atrapalhando a aula — disse friamente, sem nem olhar para Takashi.
Hana arregalou os olhos.— Ei, não precisa ser grosso! Ele só estava falando comigo.
Takashi riu sem graça, mas seus olhos brilhavam com desafio.— Relaxa, Hana. Acho que ele não gosta muito de competição.
Yuto ergueu o olhar, finalmente encarando Takashi.— Não confunda indiferença com medo.
O clima na sala ficou pesado. Hana ficou entre os dois, sentindo a tensão no ar como se fosse algo palpável.
— Chega, vocês dois! — ela exclamou, levantando-se. — Se quiserem brigar, façam isso longe de mim.
Um silêncio desconfortável tomou conta. Yuto desviou o olhar, voltando ao caderno. Takashi apenas sorriu de canto, satisfeito com a reação dele.
Hana suspirou, cansada.Por que sentia que, de repente, estava presa em algo muito maior do que esperava?
E, no fundo, não podia negar: a irritação de Yuto... parecia mais comciúmes.








